
Imagens gentilmente surrupiadas de Mission Hill
Ps: Não, ainda não escrevo sobre pigmeus.
Os Adoradores do Bezerro Dourado
Quando lá cheguei, todos prontos estavam. As mulheres dançavam, os homens bebiam, as crianças brincavam e eu... Bem, eu procurava meu lugar naquilo tudo. Cumprimentei-os um a um; alguns com sinceros apertos de mão, outros com abraços manufaturados. Não demorou até que me convidassem a falar e, assim que comecei, os poucos que ouviam, trataram de me corrigir. Errado estava eu, pequeno playboy, aspirante a cineasta, branco de classe média alta, liberal radical, carregado de preconceito e pré-juizos. Errado estava eu, ao afirmar meus pensamentos em voz alta. Meu papel, mal sabia eu, era o de concordar, abaixar minhas orelhas e comprar mais uma cerveja.
Tentei explicar que eu não sou meu pai – ele é um sujeito bem melhor do que eu – e que nada do que “tenho” eu, de fato, possuo. Tentei dizer que não busco sucesso... Que acho que isso é para quem ainda sonha em ser alguém que não é. Eu quero apenas ser quem sou. Apenas eu, e não as conquistas de outra pessoa. E quando nada disso funcionou, tentei mudar de assunto. Mas sequer me ouviram. Só riram e beberam e dançaram e apontaram e gritaram. Mas não ouviram.
Assim, me retirei. Levando comigo todo meu preconceito, todo meu moralismo, toda minha pachorra, a audácia de tentar ser um indivíduo, e, ao mesmo tempo, pensando no que iria dizer, no que creio por certo e no que vejo como justo. Opiniões que nada valem.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Esdrúxulas Histórias do Fim do Mundo
Parte III
Com evidentes olheiras, que revelavam seu cansaço e estampavam as inúmeras noites mal dormidas pelas quais passou, Arantes fitava o interior de sua mochila recém-saqueada com toda sua concentração. Sua pausa ocorrera assim que suas mãos passaram rapidamente ante seus olhos, dando-lhe, assim, uma clara visão do quão magro ficara naqueles nove meses que se sucederam à invasão. “Invasão”, que por outros foi chamada de epidemia, e alguns, mais literais, batizaram de “maldita segunda-feira em que zumbis surgiram do nada e atacaram todo o mundo”, referindo-se à maldita segunda-feira em que zumbis surgiram do nada e atacaram o mundo todo.
Poucos segundos bastaram para que o 20kg mais magro (o que lhe dava uma aparência semelhante à de Lobão numa semana de jejum), Arantes, saísse de seu estupor e voltasse à imunda realidade a que se encontrava acorrentado. Arantes sabia, como ninguém, que, mesmo à luz do dia, não era bom afastar-se por muito tempo da realidade. Realidade que exibia-lhe sua mochila e o pé-de-cabra dentro dela, ferramenta tal que Arantes pretendia usar para abrir a porta lacrada da estufa situada no quintal dos fundos da casa de se vizinho vegano, na esperança de encontrar ali alguns nabos, um pouco de alface e suprimentos para plantações futuras. Só faltando-lhe um pouco de molho para saladas... Mas podia conviver com isso, pensou.
Sem mais delongas, um dos poucos sobreviventes da maldita segunda-feira em que zumbis surgiram do nada e atacaram o mundo todo, puxou o pé-de-cabra para fora da mochila e o fixou entre a porta e o batente. Empurrou, puxou, chegou até a colocar todo seu peso (que não era muito, como expliquei) na ferramenta. Mas a porta sequer tremia. Arantes, então, tomou fôlego e distância, olhou para a ponta solta do pé-de-cabra fincado à estufa e correu até ela. Ouviu-se um estrondo e, após retomar consciência, Arantes reparou que seu novo esforço de nada adiantara. A porta permanecera fechada, seu pé-de-cabra apenas se soltara do batente.
Frustrado, Arantes passou a praguejar e a desejar ter um chapéu, para que pudesse pisoteá-lo como Seu Madruga o faria. Algo, porém, retirou qualquer pensamento de Chaves que pudesse habitar sua cabeça naquele instante.
- Por que você não quebra a janela? – perguntou a voz que o pegara de surpresa.
Assustado, Arantes recuou e olhou ao seu redor, podendo ver uma única figura acinzentada perto de si. Era um zumbi.
- Digo... é uma estufa, pelo amor de deus. Você realmente quer passar pelo único ponto que é feito de madeira? – continuou a criatura.
Arantes arregalou os olhos e sufocou um grito que nascia em sua laringe. Gritar poderia atrair mais deles e, pior, poderia fazer com que o zumbi falante parasse de falar e tivesse a brilhante idéia de come-lo.
- Saia daqui, criatura do capeta! – resmungou Arantes, à procura do pé-de-cabra, a única arma que trouxera em sua expedição. – Eu tinha um pé-de-cabra, e não tenho vergonha de usá-lo... Se o encontrar.
- Tá ali, à sua direita. – respondeu o humanóide recém-falecido.
- Ah, obrigado... – agradeceu Arantes, correndo para pegar a ferramenta enferrujada e parando pouco antes de realizar tal ato, ao perceber algo óbvio. – Peraí... Você... Fala?
- Não, sou um fantoche... tem um ventríloquo aqui atrás, falando por mim.
- Mas... Mas... Zumbis não falam. Eles... digo, vocês... Sempre me atacaram assim que me viram.
- Olha, Arantes, dizer que zumbi não fala é como afirmar que viu um saci andando de patinete... Sem tirar.
- Como você sabe meu nome?! – Arantes perguntou, surpreso ao ver seu ser pronunciado pela bocarra horrenda, um misto de pele retorcida e ossos decrépitos, do monstro.
- Porra, Arantes. A gente virou zumbi e você ficou burro? Sou eu, Pereira. Seu vizinho.
- Pereira...? É você mesmo?
- É por isso que você continua vivo. Quem iria comer um cérebro desses?
- Pereira... Mas... Como? Como você consegue falar? Nenhum dos outros falava... – perguntou Arantes assim que retomou o poder sobre seus pensamentos, forçando-os a voltar à questão do diálogo necrófilo.
- Arantes, meu filho. Eu sou vegetariano... Lembra?
- E o que isso tem a ver com você aqui, falando?
- Ué... Não quero te comer, é simples.
- Como assim?
- Arantes... Você já conversou com uma bisteca? Ou com uma porção de carne-moída? Que tal com o pastel de carne do Seu Domingos? Já?
- Ahm... Não que eu me lembre.
- Pois então. Eu não quero te comer... Portanto consigo conversar contigo normalmente. Já os outros...
- Para eles eu não passo de Filet Mignon? – perguntou Arantes, tentando absorver todas aquelas informações de uma só vez.
- Eu não diria Filet Mignon... Você é tipo um churrasquinho grego... Só que vivo... E sem o pãozinho.
- Meu deus! – exclamou Arantes, mesmo sendo ateu – Eu nunca tinha pensado nisso.
- Viu? É por isso que você não é um Filet Mignon... – observou Pereira.
O alívio com a descoberta de Arantes, todavia, duraria pouco. Subitamente, um grupo de zumbis famintos saiu de dentro da casa de Pereira, alguns deles usavam camisetas do Palmeiras e, outros, camisas multicoloridas da Mancha Verde.
- Pô, Pereira! Tá fazendo um churrasco e nem chamou? – perguntou um deles, enquanto os outros grunhiam em afirmação.
Os ossos de Arantes congelaram, suas mãos agarraram firmemente o pé-de-cabra e seus pés se moveram para trás.
- Pereira, fala alguma coisa! – pediu Arantes, - Avisa que sou seu vizinho... pelo amor de Deus.
- E dizer o quê? Que o churrasquinho grego deve ficar vivo? - questionou Pereira – Além do mais, eu não tenho comida pra essa gente toda... eles vieram ver o jogo sem avisar.
- Pereira, por favor... – implorou seu vizinho – Eu devolvo as ferramentas que peguei emprestadas ano passado.
- Não, pode ficar – respondeu o zumbi vegano – Acho que acabo de ganhar um pé-de-cabra.
E, assim, Arantes foi devorado por 5 palmeirenses zumbis. Destino mais cruel que este, não há.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Este aviso vem com um tanto de atraso, mas antes tarde do que nunca.
Estou empenhado em resolver alguns problemas que me assolavam (e assolam) na produção deste blog. Se tudo der certo, até semana que vem, voltarei a postar normalmente (leiam "escrever as mesmas besteiras de sempre").
Um abraço,
Jayme.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
A Produção do Impossível
Dentro do carro abafado, meus olhos miram constantemente o pequeno boneco preso ao retrovisor interno. Ele chacoalha a mais leve freada, curva ou solavanco que o automóvel produz, e isso é o suficiente para chamar minha fugaz atenção por vezes seguidas. Isso porque sinto que meu pensamento não quer pensar, minha boca não quer falar e minhas mãos fogem de seu dever, mas ainda assim sou capaz de baixar o volume do cd player e agarrar o telefone celular. “Susie Q”, entretanto, continua a tocar baixinho, num tom quase imperceptível, mas alto o suficiente para captar a mesma atenção que teima em me fugir a todo instante.
Desvio o olhar do aparelho de som e olho para meu celular. Enquanto forço meus dedos a digitar seu número, insistentes lembranças da noite passada brotam em minha mente, como feijões conseguem brotar em algodão molhado, sabem?
Recordações de como ela sorriu com a única piada que fui capaz de fazer naquela noite, de como insisti para que conversássemos e do cheiro maravilhoso que seu cabelo exalava quando ela se aproximou para me passar seu telefone agarravam e arraigavam-se em minha mente, enquanto eu aproximava o fone à minha orelha.
Quando ouvi o primeiro toque, perguntei-me se não devia desligar. Falar ao celular e dirigir não só me daria uma multa desgraçada, mas também poderia causar um acidente.
Quando ouvi o segundo e o terceiro toque, minha mente discorria sobre outro tipo de acidente. O que seria causado caso ela atendesse.
Ao ouvir o quarto e quinto toque conclui que não tenho tempo, paciência ou fôlego suficiente para um relacionamento, e tudo o que aquilo podia gerar era isso. Um relacionamento. Desses falidos, que me obrigariam a falar ao celular enquanto dirijo um carro.
Foi no sexto toque que minha mente saiu do inexorável acidente emocional e voltou ao possível acidente físico. Se eu fosse obrigado a falar ao celular enquanto dirijo, estaria perdido. Não dirijo tão bem assim. Não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo. Não consigo, sequer, esperar muito tempo ao telefone antes de alguém atender.
Antes do sétimo toque minhas mãos finalmente cederam, desligaram o aparelho que seguravam e prontamente aumentaram o volume do cd player, que agora tocava “I Heard It Through the Grapevine”. Meus olhos voltaram a mirar o boneco preso ao retrovisor e admirar sua dança com os solavancos do carro. E minha mente retomava o caminho de sempre; o de lembrar do perfume de seu cabelo para, logo depois, refutar a idéia de que ali poderia residir qualquer indício de futuro.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Nova visão do velho mundo
Tudo muito bonito no velho continente. Tudo muito bom, tudo muito nobre. Tudo muito falso no velho continente.
Falso, porque vi os trambiques da França, onde as pessoas são tão inteligentes que até as crianças falam francês, vi o Alzheimer espanhol e a pressa italiana. Falso, pois a Paris dos subúrbios negros e árabes, com metrôs regados a urina, não é a Paris das velhas turistas obesas e consumistas. Não é. Falso... Mas bom, ainda assim.
Bom, pois fiz parte de algo maior que eu. Pois vi o sol se encolher às 10 da noite e se esticar novamente às 5 da manhã. Pois testei a mim mesmo e a minhas pernas. Pois chegamos - por mais brega que isso soe - ao limite da comunicação, com frases cacofônicas na Holanda e mímicas na Itália. Bom, porque cresci. E voltei pra contar história.
Olá, argutos leitores! Como vão vocês? Felizes?
Venho, por meio deste post - que nem bem é um post, e eu nem tinha que explicar isso... simplesmente adoro digressões - avisar-lhes que me ausentarei durante um longo período de tempo.
E não, desta vez minha desculpa não é a preguiça.
Viajarei numa jornada espiritual até Uganda e não retornarei tão breve. Mas prometo a vocês que este blog estará recheado de fotos, quinquilharias, bonecos vudus e bobeiras pessoais do tipo, assim que retornar.
Enquanto isso deleitem-se com todos os posts que vocês ignoraram deste blog.
Um abraço,
Jayme (sim, o mesmo sujeito que assina todos os post deste troço...)
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Babel
Só me interesso pelo improvável, me apaixono pelo impossível. Só me aproximo do intangível, me apego ao que me é distante. Só a dor me aguça os sentidos, só a ausência me inspira, só a impotência me faz querer, só a dificuldade me faz agir, só a impassibilidade me revela o estar só.
Irônico, pois agora, enquanto escrevo estas linhas e você dorme, sei que consigo pensar em alguém às 5 da manhã dentro de um vagão de metrô. Do contrário, se houvesse afeto maior do que um par de abraços forçados, de dedos estralados, olhares trocados ou sorrisos roubados, meu querer permaneceria imaculado.
Mas, não. Gosto é do estrago, gosto é do desarranjo, aprecio a balburdia e a desordem tomando conta de minha vida. De que me adianta querer quem me quer? Que bem me faz me deixar levar pelo que já conheço? Ao invés - meu revés -, prefiro mergulhar no desconhecido, correndo todos os riscos de afogamento.
Só me interesso pelo improvável, me apaixono pelo impossível.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Eu, o Homem de Lata e meu Avô
Devo dizer que os comentários deixados por vocês, argutos leitores, no último post deram a entender que sou um sujeito sem coração. O que é um tanto cruel e desumano de sua parte, mas ok. Sou um sujeito com autocrítica, consigo perceber quando salgo demais minha pipoca ou então quando me obrigam a ver que há algo de errado com minhas aurículas. Tanta autocrítica tenho que, certa feita, multei a mim mesmo por atravessar a rua sem olhar para os lados. Portanto saibam que, apesar de tentarem, vocês não conseguiram ferir meus sentimentos. Até porque sentimento é algo que alguém sem coração não possui.
Mas fato é que me coloquei a pensar - fato raro - após ignorar sua ácida tentativa. Se eu não tenho coração... Aonde é que este teria ido? Será que perdi durante uma eletrizante partida de gamão? Ou alguém entrou em meu apartamento durante a noite e substituiu meu órgão vital por um cacto, ou por um pedaço de argila, ou então por um hamster, com aquelas rodinhas... Sabem? A questão é: o que houve com meu coração?
Tentei assistir ao Mágico de Oz, pois me disseram que o Homem de Lata também não possuía um coração. Mas, convenhamos, no mundo de Oz existem macacos alados... E qualquer mundo em que macacos andem - ou voem - por aí com asas, um coração não é algo tão importante assim, não? Portanto descartei qualquer solução advinda desse filme nefasto.
Tentei, então, realizar uma boa ação... Mas não conheço muitas velhinhas que queiram atravessar a rua. E como é a única boa ação em que sou capaz de pensar, prontamente mudei de idéia.
Restou-me ligar para minha avó e pedir conselhos à simpática mulher - ou isso, ou pedir que tentasse atravessar a rua comigo por perto.
- Vó! - exclamei assim que atenderam ao telefone.
- Hã? - perguntou a voz masculina do outro lado da linha.
- Ah, oi vô - disse assim que entendi que minha avó não tinha mudado de sexo, era apenas meu avô atendendo ao telefone. - Minha vó taí? Preciso falar com ela...
- Alô!? - ele respondeu - É o Zé Pinto?
- Não, vô! É o Jayme...
- Ah, perdeu o "Pinto"? - e ainda perguntam de onde tiro meu senso de humor... Mas, ok.
- Não, vô... Tá aqui ainda - respondi apressadamente - Eu queria falar com minha avó. Andam dizendo por aí que não tenho coração.
- Não tem o quê?
- Coração, vô! Acho que tem algo de errado com os ventrículos... Por aí...
- Você está tendo problema com alguns ventríloquos?
- Não, não... VEN-TRÍ-CU-LOS.
- Aah, por que não disse logo? É do coração, é?
- Isso aí, vô. Pessoal anda dizendo que não os tenho... Os ventrículos, digo.
- Mas que coisa cruel a se dizer...
- Pois é, eu sei... Desalmado, não?
- Demais...
- Enfim, a vó taí?
- Tá não, meu filho. Mas não pode ser comigo? O que vc queria com ela?
- Ahm... - eu disse após ter certeza de que já havia dito isso - Andam dizendo que não tenho coração...
- Não tem o quê?
- Coração, vô... Coração..
- Mas claro que tem, meu filho! E aquela vez em que você doou todo o dinheiro que tinha para instituições de caridade?
- Ahm.. - novamente esitei - Não fui eu... Acho que você leu no jornal...
- É, faz sentido. Mas e quando ajudou sua avó a atravessar a rua?
- É, mas já faz tempo...
- Lembrei! Teve aquela vez em que você teve a idéia de fazer uma boa ação para três pessoas, e essas três pessoas teriam de fazer boas ações para outras três pessoas e assim por diante? Fazendo do mundo um lugar melhor... Lembra não?
- Ahm... Claro, claro! - disse antes de agradecer e desligar o telefone.
No fim das contas, nunca lhe contei que aquela era a trama de "A Corrente do Bem" e que o menino morre no final do filme, por não querer decepciona-lo. E porque contar o final do filme para os outros é um pecado venial.
Viram? Vai ver eu tenho um coração... Mas o reservo para os momentos inoportunos.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
"Eu confio em você", uma amiga diz.
O que acho curioso, afinal nem eu confio em mim mesmo. Mas ela diz que confia e abre um sorriso fraterno. Eu sorrio de volta.
Acontece que simplesmente não me importo. Não me importo e não entendo. Sequer acredito em confiança cega. Entendam, pessoas mudam. Heráclito disse, ou escreveu, ou ditou... Sei lá... Que é impossível banhar-se num mesmo rio duas vezes. Pois mudamos o tempo todo. O rio muda o tempo todo. O tempo muda o tempo todo. Logo, se tudo isso vive a se alterar, tudo se contradiz. E como confiar em algo que retira o que diz simplesmente por não crer mais no que cria? Como confiar no tempo, que, relativo, passa mais rápido para o sujeito que simplesmente pretende jogar uma partida de truco? Acredito, assim, em crendices volúveis, nada mais. Acredito em crenças que são reflexos difusos de erros e falhas pessoais. É uma das poucas coisas em que acredito. Em confiança, como já disse, não acredito.
É quando tento explicar essa pequena versão que agreguei às minhas poucas crenças, ela se espanta. "Acho egoísmo seu", ela diz, "ficar assim, não acreditando em nada... é egoísmo". Resolvo não dizer que há uma diferença entre em nada crer e crer em nada, e que, parafraseando o falecido Artur da Távola, "egoísmo" é outro nome para "equilíbrio emocional". Não que eu seja equilibrado e que não seja egoísta... Simplesmente não me importo muito. Pois nela não confio. Pois sei que logo não nos veremos mais. Pois há pouco troquei meu hedonismo infantilóide pelo niilismo recém-descoberto na gaveta. Talvez por serem esses meus reflexos difusos. Mas são neles em que creio. E por eles que não creio.
Ao menos por enquanto.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Os Poemas Perdidos de Piriac Comumnente
Parte II
A saga de Piriac Comumnente, para seu infortúnio, não terminaria com sua primeira correspondência a Adoração A. Rebites. Não. Dias após anunciar a descoberta da primeira das cartas, Patrick Vêdimais clamou ter encontrado, após intensa pesquisa, dura ponderação e alguns lanchinhos à tarde, outras centena de cartas endereçadas a Adoração, a quase-velada paixão do poeta Piriac e, junto disso, várias receitas de bolo, escritas pelo poeta em pessoa e publicada posteriormente com o título "Receitas de Bolos e Amargura. Uma tragédia culinária"
Segue-se a transcrição de uma delas:
"1 lata grande de ameixa-preta em calda
1 xícara de manteiga 1 xícara de porcelana, cheia de manteiga em temperatura ambiente
3 aljavas com açúcar mascavo peneirado
43 ovos
3 1/4 bacias com farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó. A receita para "sopa de fermento em pó" encontra-se na página 17.
1 1/2 xícara de iogurte natural
2 claras - não me refiro a ovos, mas, sim, de mulheres chamadas "Clara".
1 copo de lata cheio de uva rubi
1 dedal contendo uva thompson
2 barris repletos de açúcar refinado
100 g de balas de goma sortidas, cortadas em fatias finas"
O título "Receitas de Bolo e Amargura" parece ser um trocadilho um tanto irônico sugerido por Vêdimais, uma vez que todas as receitas de Piriac demandavam 2 ou 4 barris repletos de açúcar refinado e/ou mascavo.
Todavia, nada disso é relevante, uma vez que nosso intuito é reiterar o amor que Comumnente sentia por Adoração A. Rebites. Um amor que superava a simples adoração, sugerida em sua primeira carta a concubina, filha de um ferreiro notório, Pestilentus A. Rebites; famigerado, não por sua habilidade com o manuseio e fundição de ferro, mas, por sua capacidade de assoviar e chupar cana simultaneamente. As primeiras cartas a Adoração, aliás, denotam a óbvia timidez de Piriac ao revelar seus sentimentos. É só na quinta vez em que se correspondem que Piriac Comumnente toma coragem para escrever mais de uma linha de galanteios: "Ps: Esqueci minhas meias em frente sua casa ontem à noite. Pode pegá-las para mim?", é o que diz o romântico escritor.
Já na décima quinta carta, Piriac é capaz de escrever até três parágrafos completos. São eles:
"Soroca, Moldávia
Bucareste, Romênia. 7 de Julho de 1609.
Cara Adoração A. Rebites.
Receio informar-te de que nosso amor continua sendo tabu. Nem numa centena de anos futuros permitirão que um pobre escriba como eu case-se com uma adorável mulher de vida fácil, como ti. Isso só será permitido daqui a 101 anos. E ambos teremos morrido quando tal dia chegar. Quero dizer... Eu viverei por muito, muito tempo... É fato. Mas tu provavelmente morreras ano que vem, já que foi corretamente diagnosticada com sífilis há algum tempo. Ó, vida cruel.
Sim! É verdade que tu és a concubina filha de um ferreiro ensandecido mais bela que já conheci. E não escrevo estas acres palavras apenas por escrevê-las, já conheci outras concubinas filhas de ferreiros insanos... E nenhuma delas possuía tua beleza absolutamente medíocre e quase imperceptível. Nenhuma delas possuía tua pequena verruga peluda ao lado da boca. Nenhuma delas desenvolveu rugas aos 14 anos de idade.
Não! Nem todas as concubinas filhas de um ferreiro maluco que já conheci seriam capazes de ofuscar tua beleza. Ó, minha rainha de voz grave e pêlos no buço. É por isso que tudo o que peço é que passe a corresponder minhas súplicas, querida amada. Já enviei-te cerca de 16 cartas - 15 por mim redigidas e um anuncio de pizzaria, que enviei-te por engano... Já pedi desculpas por isso - e nunca recebi um agradecimento sequer. Cheguei a pensar que o carteiro era o safado que andava roubando minhas cartas, mas, não. Pouco antes de morrer, vítima da peste, Bubus Onônica, o carteiro, me confidenciou que entregara todas as cartas a ti, pessoalmente.
Talvez! Talvez nossa total ausência de comunicação advenha do fato de ti, linda concubina filha de um ferreiro doido, ser analfabeta. Claro, alguns dirão isso. "Como poderia ela responder-te se nem sabe ler?", dirão. Mas, talvez a justificativa resida no fato de seres surda-muda e um tanto míope. Portanto nunca foi capaz de ouvir, ver ou falar em meu amor por ti.
Ó, adorável Adoração A. Rebites. Tudo o que quero é que aprendas a ler... E que passe a ouvir e falar como qualquer concubina normal, claro. Mas se puderes simplesmente aprender a ler, já está de bom tamanho.
Intensos Beijos,
Piriac Comumnente"
Esta é a penúltima carta enviada a residência de Adoração A. Rebites de que temos conhecimento. Adoração morreu dias após tê-la ignorado solenemente, tal qual fez com as outras. A última carta, que conclui a coleção "Cartas de Luxúria a Adoração A. Rebites", inclui um poema intitulado "Ode a Minha Mão Direita", indicativo primordial da solidão e desconforto que Piriac Comnumente sentiu após ter notícia do falecimento de Adoração. Sua única amada, a partir daquele momento, seria sua mão direita.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Os Poemas Perdidos de Piriac Comumnente
Parte I
Poucos disso sabem, porém dias antes de William Blake declarar-se um inveterado zoófilo, expressando sua paixão, sobretudo, por tigres brilhantes; isto é, séculos atrás, quando Lorde Byron nem mesmo Lorde era - Byron cultivava a fama de ser um péssimo jardineiro -, antes que José de Alencar pudesse sequer pensar em escrever a primeira de suas trinta mil páginas que descrevem um único pé de bétula e muito, muitos ciclos lunares antes dos elogiados versos de Rogério Flausino "não alimente amor pelo telefone/isso é ilusão", havia um poeta que daria vida ao que posteriormente ficara conhecido como "síndrome do intestino irritável", ou "piriri", num léxico elitista. Tal poeta também daria início ao que cultos chamaram de "pré-romantismo" com seus versos passionais e escrita carregada de sentimentalismo, mas afirmo que seu forte era, de fato, a dor de barriga. Seu nome era Piriac Comumnente.
A primeira informação importante sobre o Piriac Comumnente não é tão importante assim. Logo, pulemos para a segunda informação sobre o escritor romeno: Piriac não é romeno, é moldávio. Estudiosos apenas decidiram chama-lo de romeno por suas óbvias características físicas, que o distinguem de um cidadão comumente nascido na Moldávia. Isso e o fato de ninguém saber exatamente onde tal país se situa, claro. A terceira informação importante sobre Piriac é que a qualidade de sua vasta obra só foi reconhecida há pouco, sendo, até então, utilizada apenas para o embrulho de pães, frios e um ou outro robalo - robalo, pois na Romênia ninguém come salmão. O crítico islandês Patrick Vêdimais é o responsável pela publicação de sua primeira conturbada obra, intitulada "Ai, uma farpa, ai!" - primeira parte da culminante trilogia "Em tempos de escravidão, anão era troco", cujos direitos também pertencem a Vêdimais.
Recentemente, quatro minutos atrás - enquanto você ainda lia o primeiro parágrafo - pra ser exato, Vêdimais declarou ter encontrado mais um dos poemas perdidos de Piriac Comumnente quando procurava por algo para forrar seu novo abajur. Os novos alfarrábios de Comumnente, 545454 versos - note a precisão matemática do autor romeno - rimados em apenas duas estrofes, foram analisados, traduzidos e leiloados prontamente, um minuto atrás para ser exato - enquanto você se preparava para ler este parágrafo.
A mais rentável obra de Piriac Comumnente, todavia, continua sendo "Cartas de Luxúria a Adoração A. Rebites". Trata-se de uma série de cartas escritas pela mão esquerda de Piriac, em que o poeta-dramaturgo-frentista declara seu amor por uma mulher chamada "Adoração A. Rebites", nobre concubina de beleza singular, capaz de atiçar o coração de alguém que anteviu o mal-do-século. Não me refiro à banda "Mal do Século", mas, sim, ao amor. Segue uma transcrição da primeira carta, também encontrada por Vêdimais:
"Soroca, Moldávia
Bucareste, Romênia. 7 de Abril de 1600.
Cara Adoração A. Rebites.
Adoro-te.
Beijos,
Piriac Comumnente"
Brilhante, eloqüente e elucidante, não?
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:

Trilogia do Amor Falido
Parte III - Descaso.
Mais um ano que se passa. Uma data insignificante, mas que tanto simboliza. Mais um ano que se passa.
Prova do que digo é o olhar que recebi, quando contei-lhe de meus planos futuros. "Ah, legal", sua boca expulsou, enquanto seus olhos revelavam a indiferença disfarçada.
Mais do que isso. Seus olhos mostravam o esforço do interesse. Uma constante preocupação obrigatória, mas não desejada. Observação necessária, porém mal-quista. Por alguns segundos esperei que dissesse "tá sentindo esse cheiro? Esse cheiro não vem de mim, vem do ralo", mas o que veio foi o mais-que-esperado "bem, tenho de ir, estou atrasado.". Seria o mesmo dizer "por falar nisso, vamos mudar de assunto?".
Mais um ano que se passa. Uma data para admirar as muletas que uso para sustentar meu aleijamento emocional. Mais um ano que se passa.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Em Tempo
Toda semana há um texto novo aqui. Lembrem-se disso.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Errar é humano - Flutuar é divino
Momentos depois do ocorrido, preso num vagão de metrô com centenas de outras pessoas, portanto obrigado a refletir, finalmente consegui ter uma imagem ampla de tudo. Dias antes, após uma hora de espera ansiosa, insegura e, até, insensata, a primeira coisa que cruzou minha mente, assim que vi sua discreta bolsa verde fluorescente, foi: "ela existe". A segunda foi algo relacionado à sua inegável beleza, mas a primeira, admito novamente, foi a constatação do real. Realidade que pontuou incessantemente todos os dias que passamos juntos.
Para contrapor os CDS gravados, os lugares visitados, os beijos trocados e os risos desvairados, havia o real atrapalhado. Rimas idiotas, eu sei... Mas lá estava algo que me impedia de ser o eu que construí há tempos (calculista e tudo o mais). Lá estava a gravidade, minha falta de jeito, meu querer exacerbado e o constante saber de que o tempo, relativo, passa mais rápido para os que procuram congelá-lo. Havia, assim, a realidade.
E sempre que sentia meus pés se levantando, meu corpo saindo do chão, minha mente flutuando, lá estava ela, a realidade. Botando-me nos eixos, me obrigando a dar cabeçadas (literais e metafóricas), me empurrando no sentido contrário ao desejado (rumo centro, não Ibirapuera). Sempre que me senti flutuar, errei. Mesmo com cócegas maliciosas, com piadas infames suportadas, com a certeza de que eu ainda poderia encontrar meu eu inventado e com a apreciação de manhãs preguiçosas, errei. Ou fui obrigado a errar.
Deste modo, nossa despedida, momentos antes de me ver confinado num vagão lotado, que deveria ser algo calorosa, cheia de saudade a ser sentida e de certezas a serem descobertas, foi inevitalmente preocupante e fria. O efêmero beijo foi dado de maneira ansiosa, insegura e, até, insensata, pelo mesmo garoto real que a esperara no aeroporto, dias antes. Deixando-lhe apenas seu gosto em sua boca, algumas memórias e a certeza de que a realidade, mesmo limitante, opressora e reveladora, pode ser melhor que o retorno de sua persona fabricada... Aquela que não erra, mas também não flutua.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
O Misterioso Matador das Mitocôndrias™
Uma peça em um só ato (ou Um post muito longo).
Em frente a um velho prédio está DETETIVE LIMA, um sujeito de meia-idade que leva um velho chapéu à cabeça, traja um terno surrado e fuma um charuto fedorento, acompanhado de seu ASSISTENTE, um nobre rapaz magro, bem vestido, de cabelo desgrenhado e sem nome, não pela falta de relevância nesta peça, mas porque seus pais simplesmente se esqueceram de registrá-lo num cartório. O assistente toma nota de tudo o que Detetive Lima fala, enquanto este anda impaciente de um lado para o outro na calçada.
[Detetive Lima]
Isso não é nada bom, nada bom.
[Assistente]
O que não é bom, senhor?
[Detetive Lima]
Como "o quê", seu celenterado lisérgico? Você não ouviu aquele grito?
[Assistente]
Sim, mas achei que fosse o pipoqueiro. Ele gritou algo parecido com isso há pouco.
[Detetive Lima]
Ele gritou "Pipoca sem Piruá!", não "Ai, minhas mitocôndrias"!
[Assistente]
Sim, mas nunca se sabe o que vai nesses saquinhos de pipoca de rua, não?
[Detetive Lima]
Tem razão. Dia desses encontrei um pedaço de unha em meu yakissoba.
[Assistente]
Veja pelo lado bom, deve ser melhor do que encontrar uma unha inteira.
[Detetive Lima]
Meu caro nematodo, desde que o Misterioso Matador das Mitocôndrias™ apareceu em nossas vidas, não há lado bom em encontrar um pedaço de unha num yakissoba.
[Assistente]
Por falar nisso; o grito que ouvimos... Não teria a ver com o mesmo?
[Detetive Lima]
E o que é que aquele grito teria a ver com o sujeito que me vendeu o yakissoba?
[Assistente]
Refiro-me ao terrível e Misterioso Matador das Mitocôndrias™.
[Detetive Lima]
Ahm... ah... sim, claro! Não interrompa minha linha de raciocínio, seu anfioxo subnutrido. O que quis dizer, antes de sua obtusa interrupção, é que o grito que ouvimos certamente tem algo que ver com o Misterioso Matador das Mitocôndrias™.
[Assistente]
Sim, sim... Perdoe-me por não ter percebido antes, Detetive Lima (clamando em alto e bom som).
[Detetive Lima]
Obrigado por dizer meu nome em alto e bom som. Algo me diz que autor desta peça já se perguntava a razão de ter me dado um nome, já que ninguém me chamava de Detetive Lima.
[Assistente]
Ora, não tem de quê.
[Detetive Lima]
Mas voltemos ao que interessa. O Misterioso Matador das Mitocôndrias™ tem de estar por aqui...
[Assistente]
Se não estiver, tenho certeza de que ao menos o pipoqueiro está. Vi-o há alguns minutos, apenas...
[Detetive Lima]
Se atenha ao caso, sim?
[Assistente]
Eu só quis dizer que o pipoqueiro passou há pouco e foi para o mesmo lado de onde ouvimos o grito sair...
[Detetive Lima]
Não me importa o pipoqueiro! Quem me preocupa é o Misterioso Matador das Mitocôndrias™...
[Assistente]
E, agora que paro para pensar, o pipoqueiro se parecia bastante com um retrato falado do sociopata que procuramos...
[Detetive Lima]
Deus do céu! Já disse para você jantar antes das apresentações... Senão fica todo obcecado pelo pipoqueiro. Toda noite é isso... "Pipoqueiro isso", "pipoqueiro aquilo". Tenha dó! Estamos procurando o Assassino das Mitocôndrias!
[Assistente]
Acho que, por lei, somos obrigados a chamá-lo de Misterioso Matador das Mitocôndrias™.
[Detetive Lima]
Olhe aqui, artrópode pentastelminto, pouco me importa o nome do Misterioso Matador das Mitocôndrias™. Só sei que há um sujeito que mata as pessoas apenas para roubar-lhes as mitocôndrias andando por aí.
[Assistente]
É, tem razão, Detetive Lima (falando em alto e bom som). O Misterioso Matador das Mitocôndrias™ é gente da pior estirpe.
[Detetive Lima]
Pior estirpe? Ele é a escória do homo-sapiens... Alguém que rouba suas mitocôndrias, sem mais nem menos, apenas para pendurá-las como nefastos troféus de sua inigualável diabolicidade, é a ralé que deveria ser eliminada pelo evolucionismo.
[Assistente]
Se bem que... Quero dizer... Andei pensando e...
[Detetive Lima]
Não ouse citar o pipoqueiro!
[Assistente]
Longe de minha intenção, Detetive Lima (em alto e bom som). Minha dúvida é outra. Sabe, uma mitocôndria nada mais é que uma organela realizadora da respiração celular...
[Detetive Lima]
Fico feliz que você tenha tempo para acessar o Wikipédia.
[Assistente]
Mas como é que alguém consegue roubar uma organela? É algo pequeno demais, entende? Ínfimo. Não faz muito sentido... Não há como roubar uma organela.
[Detetive Lima]
Entendo. Eu me fiz a mesma pergunta enquanto você tagarelava sobre pipoca. Cheguei à conclusão de que o autor desta peça simplesmente não é um sujeito muito inteligente... Deve ser um desses negos que escrevem em blog e se sentem escritores, sabe?
Neste momento entra em cena um pequeno, esquálido e cabeludo humanóide. Ele gagueja ao falar e gesticula ininterruptamente. Trata-se do AUTOR.
[Autor]
Ok, ok. Admito que não seja meu trabalho mais brilhante... Mas não precisa ofender.
[Assistente]
Falando no capeta...
[Detetive Lima]
Quem é esse? É o Misterioso Matador das Mitocôndrias?
[Assistente]
Não reconhece? É o Autor (em alto e bom som) da peça. O sujeito que me obriga a falar o nome de todos "em alto e bom som" o tempo todo.
[Autor]
Não perca seu tempo, rapaz. Apesar da piada boba inserida em suas primeiras falas, Detetive Lima não é um personagem adepto da metalinguagem neste texto.
[Detetive Lima]
Como é? Fale minha língua, seu anfioxo emplumado!
[Autor]
Viu? E nem sei por que acho engraçados esses insultos biológicos.
[Assistente]
Detetive, este é o homem que nos botou nesta situação. Não é o Misterioso Matador das Mitocôndrias™, mas é o responsável por estarmos aqui.
[Detetive Lima]
Sei... Então que história é essa de alguém roubando organelas por aí?
[Autor]
Pois é... Tive a idéia no banho. Segui em frente, mas me arrependi.
[Assistente]
Arrependeu-se? Por qual motivo?
[Autor]
Um deles são suas falas... Terríveis. Outro é o fato d'esta peça ser impossível de ser finalizada. Não tem como... Já tentei de diversas maneiras. Até transformei o pipoqueiro no Assassino das...
[Assistente]
Misterioso Matador das Mitocôndrias™.
[Autor]
Isso. De qualquer maneira, não funcionou. Não há lógica relacionando o pipoqueiro ao sujeito que vocês procuram.
[Detetive Lima]
Rá! Não falei?
[Assistente]
Já pensou em Deus Ex Machina?
[Detetive Lima]
Chamou de quê?!?
[Assistente]
Deus Ex Machina... É uma inesperada, artificial ou improvável personagem, artefato ou evento introduzido repentinamente em um trabalho de ficção ou drama para resolver uma situação ou desemaranhar uma trama.
[Detetive Lima]
Você e o wikipédia de novo, hein? Lembre-me de reduzir seu salário...
[Autor]
Não, não! Ele tem razão!
[Detetive Lima]
E como você vai introduzir isso na...
Neste momento o AUTOR sai de cena e, simultaneamente, atravessa o palco um ator (com um salário bem baixo, já que é sua única contribuição para esta peça) empurrando um carrinho de pipoca e gritando "Pipoca sem Piruá!", enquanto os dois personagens restantes, embasbacados, observam seu trajeto.
[Detetive Lima]
Cruzes! Você viu isso?
[Assistente]
Déjà vu...
[Detetive Lima]
Hey, para onde foi o Autor?
Agora um estridente pedido de socorro é dado por outro ator mal pago, dos bastidores. "Ai, minhas mitocôndrias!", é no que se traduz o grito.
[Detetive Lima]
Isso não é nada bom, nada bom.
[Assistente]
O que não é bom, senhor?
[Detetive Lima]
Como "o quê", seu celenterado lisérgico? Você não ouviu aquele grito?
[Assistente]
Sim, mas achei que fosse o pipoqueiro. Ele gritou algo parecido com isso há pouco.
[Detetive Lima]
Ele gritou "Pipoca sem Piruá!", não "Ai, minhas mitocôndrias"!
[Assistente]
Sim, mas nunca se sabe o que vai nesses saquinhos de pipoca de rua, não?
Da Esperança Perdida
Exasperada, ela adentrou o cômodo. Seu desespero, só comparável ao de Pandora, ao abrir sua caixa, era causado por uma crença, todavia, não por um fato. Sabia que havia colocado ali, só não se recordava exatamente onde a guardara. Levantou as almofadas, jogando-as de lado; nada. Ajoelhou-se para futricar o vão entre o chão e o sofá, arranhando os joelhos; nada. Abriu uma, duas, três portas do armário, chocando-as ao fazer isso; nada. Arrastou a t.v. e o suor brotou-lhe à testa, moveu a mesa e seus pulmões imploraram por ar, fuçou em velhas roupas e seu coração, mesmo agitado, se espremeu contra sua caixa torácica; nada; nada; nada.
"Não é possível", murmurou "tem de estar aqui". Pois sabia que a possuíra, sabia que a levara consigo.
De súbito, lhe ocorreu: a gaveta. Era o único ponto que não havia revirado em todo o cômodo e, mais que isso, ao olhar para ela lembrou-se vividamente de lá depositar o que procurava, "para quando as coisas ficarem difíceis.". E quase reencontrou o que buscava.
Correu para a gaveta, puxou-a com toda sua força e começou a vasculhá-la. Contas, camisinhas, canetas, um remédio para a gripe, um marcador de livros e alguns clipes de papel. Aflitas, suas mãos recomeçaram a contar os itens existentes na gaveta, desta vez jogando-os para o outro lado do apartamento, um a um. Nada. Não havia nada, senão o fundo de uma velha gaveta ante seus olhos. E assim soube que de fato a perdera.
Pois mesmo Pandora, ao liberar as mazelas do mundo, encontrara ao fundo de sua caixa, a esperança. Ela, todavia, encontrara a desilusão.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Um fim, um começo e várias velhas piadas
Olá, visigodos leitores. Como vão vocês? Felizes?
Há alguns dias declarei estar trabalhando (entre outros verbos) em algumas novidades. Novidades que, na época, não foram reveladas... Não porque não pudessem ser, mas simplesmente porque fiquei com preguiça de escrever algo com mais de quatro ou cinco linhas. Hoje, entretanto, é dia de revelações. O projeto em questão finalmente começou a tomar forma e a preguiça foi eliminada após um copo de café. O universo conspirou a nosso favor. O universo e o sujeito que me vendeu o copo de café, digo.
Fato é que este blog tem consumido tempo e criatividade demais para ser mantido numa base regular há seis longevos anos. Fato é que, por incrível que pareça, eu tenho uma vida pessoal... Juro que tenho (é sério)... E simplesmente não tenho sido capaz de conciliar ambos. Assim, por mais que me doa fazer isso, anuncio que o Dios Mio!! encerrará atividades nesta fatídica semana.
Mas não temam! Lembram-se do primeiro parágrafo? Se você o pulou, trate de voltar e ler. Leu? Posso continuar?
Pois bem, por saber que não serei capaz de ficar ausente no mundo virtual por muito tempo, montei um novo projeto; um projeto mais leve e de atualizações mais esparsas e simples. Sua inauguração deve se dar no final de abril, porém eu, alma caridosa que sou, preparei uma pequena prévia do que está por vir. Um rascunho geral de como se dará o projeto que há de substituir os seis anos de Dios Mio!!.
Contemplem: O Novo Projeto!
Ps: Por "contemplem" eu quero dizer "cliquem ali". Mas se você preferiu não clicar, ou simplesmente resolveu pular outro parágrafo, arranjei uma solução. Você pode clicar aqui, aqui, aqui ou aqui. Mas nada os impede de clicar aqui.
Ps2: Já você, que lê este blog há muito tempo, deve se perguntar "Mas ele não faz piadas novas?". A reposta para tal questionamento é, simplesmente, "Não". Até a próxima.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Guia Prático
Como ser sarcástico e cultivar inimizades. - Aula 1
[Garota do bar] - Hey.
[Eu] - Oi.
[Garota do bar] - Você vem sempre aqui, né?
[Eu] - Não. Nem sempre.
[Garota do bar] - Mas eu sempre te vejo por aqui...
[Eu] - Talvez você deva fechar os olhos.
[Garota do bar] - Ai...
[Eu] - Tudo bem com você?
[Garota do bar] - Tudo. Viu... Você pode me dar carona?
[Eu] - Poder eu posso... Mas poder não é querer.
[Garota do bar] - Já pedi pro seu irmão. Ele topou.
[Eu] - Então tudo bem.
[Garota do bar] - Só espera um pouquinho que vou pegar minha mochila...
[Eu] - Mas você vem de mochila para um bar?
[Garota do bar] - É que eu estava num churrasco antes...
[Eu] - E não podia deixar a carne lá? Teve de trazer na mochila?
[Garota do bar] - Ai, bobo... É minha roupa que está na mochila.
[Eu] - Sei... Aposto que você tá com um quilo de kafta escondido por aí...
Momentos depois, quando paramos na porta de sua casa, que, por sinal, é bem longe da minha residência:
[Garota do bar] - Poxa, não precisavam se desviar tanto do caminho pra me dar carona...
[Eu] - Nã... Tarde demais... Já me desviei pra caralho. Devia ter avisado antes.
[Garota do bar] - Ai... Desculpa.
[Eu] - Tudo bem. Eu não planejava chegar cedo em casa mesmo.
[Garota do bar] - Então tá. Tchau!
[Eu] - Olha, não vá esquecer sua kafta.
[Garota do bar] - Ai... tonto.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Prometi e cumpri, inanes leitores!
A primeira das "coisas novas" prometidas no post de 9 (nove) dias atrás é, na verdade, uma coisa velha. Uma coisa velha com cara nova.
Trata-se da volta do:
