Blogue Mio!!

Anos atrás, seis para ser quase exato, esta simpática e modesta figura que vos escreve, decidiu começar a escrever. Sim, pois sem tal decisão eu não estaria aqui escrevendo, estaria? Bem, fato é que decidi começar a escrever e, por consequência (ou peripécia de Destino, o sádico), criei um blog. Tal blog passou a carregar dezenas e dezenas de posts geniais e idéias mirabolantes com o passar do tempo. Furos de reportagens lá surgiam, teorias existenciais fantásticas lá nasciam e poemas parnasianos, dadaístas, futuristas e surrealistas lá tomavam forma. Havia de tudo. Tudo, menos textos sobre pigmeus. Não gosto de pigmeus. O único defeito do blog em questão, se é que havia algum defeito, era não possuir leitores. Assim, após meses pensando no que deveria ser feito, finalmente encontrei uma solução. Apaguei aquele blog e criei o Dios Mio!!. Que não é nada disso, mas pelo menos alguém lê. Divirtam-se.


Comentários Suyos!!

O sistema de comentários (aquele pequeno link inserido logo após todo post) não é um mero enfeite. Eu pensei que fosse durante um tempo, mas, acreditem, não é. Portanto comentem, escrevam, reclamem, revelem o amor de sua irmã mais nova por minha pessoa. Façam o diabo. Para incentivá-los, decidi separar infames comentários de famosos leitores que já registraram seus dizeres por aqui:

"Para você, sou um simples ateu. Para Deus, sou a leal oposição" - Woody Allen

"Se você quer uma visão do futuro, imagine uma bota pressionando um crânio humano com toda sua força" - George Orwell

"Minha irmã ama você..." - Immanuel Kant

"..." - Charlie Chaplin


Projetos Mios!!

Dios Mio no Orkut!!
Abandonadolog!!
Te Mandamos!!


Bloguentos Mios!!

Ah, É?
Ainda Podia Ser Pior
BbLinda
Bom Procê
Cata Treco
Conjunções e Advérbios
Confissões de Uma Mente [nada] Perigosa
Depósito Calvin
Escuta Só
História Pra Boi...
In Loko Again
JBF
N e c r o s i s
Reticente
Sabe...?
Secos & Molhados
Spoiler
Syl
Uaaai?!
Último Momento



Arquivo Mio!!
Clique Aqui



CLIQUE E VERÁS





SINCE
24/01/2004




Imagens gentilmente surrupiadas de Mission Hill




Ps: Não, ainda não escrevo sobre pigmeus.


Terça-feira, Abril 07, 2009



Hasta la vista, Blogger

Este blog feneceu, amiguinhos, e isso já deveria ser perceptível. É impossível continuar qualquer tipo de registro online dado o descaso, a soberba e a ignorância do Blogger e sua trupe.

As boas notícias, entretanto, consistem em dois novos portais em que vocês poderão encontrar minha pessoa, arrumando desculpas para permanecer mais tempo conectado, evitando efetuar minhas responsabilidades.

Refiro-me ao Twitter, atualizado toda vez que eu estiver afim de falar qualquer bobagem (em outras palavras, o tempo todo), e ao O Quixote, blog hospedado pelo bacana Wordpress, com atualizações advindas de momentos de necessidade (ou seja, quando me der na telha).

Além disso, gostaria de lembrar que continuo lendo grande parte dos blogs dos que aqui comentavam. Apenas deixo recado quando tenho algo a dizer, é verdade... Mas isso não quer dizer que me ausentei completamente, capisce?

Um grande abraço,
Jayme


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Segunda-feira, Março 02, 2009





Jajá chega...
e isto é uma promessa.



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Quinta-feira, Janeiro 01, 2009



Ex.
É o prefixo que me regra.
Ex-escritor, ex-amigo, ex-namorada...
É tudo em que consigo pensar e tudo em que me disponho a gastar energia. Disposição tal que vem não sei de onde, que parte não sei de quê.
Parte do ex.
Parte do fim.
Começa no encerramento.
Mas como se inicia algo que começa no final, lhe pergunto.
Algo que se forma no momento fatídico de um fato encerrado.

Nem eu sei.

Feliz 2009

Ps: obrigado a quem comenta por aqui.



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Quarta-feira, Outubro 22, 2008



Como Se Mostra a Mostra

Olá, preclaros leitores! Como vão vocês? Felizes?

Antes de começar (e não, ainda não comecei), devo dizer que este post atravessou as barreiras que dividem um universo inteiro e também foi parar neste blog.

Agora sim, vamos ao parágrafo inicial deste post:

Fato é que a 32ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo está a ocorrer na cidade de São Paulo desde o dia 17 deste mês, encerrando-se no dia 30 de outubro.


Mostra Internacional, apenas para quem tem peito


Sim, isso é um fato.

Outro fato é que, como vagabundo estudante de cinema, eu poderia postar aqui intermináveis resenhas. Poderia criticar o horroroso Alvorada em Sunset, ou o chatérrimo A Vida Moderna. Mas não o farei por dois simples motivos.

Em primeiro lugar, quero evitar a fadiga, e apertar estas teclas demarcadas por letras é demasiado trabalhoso para alguém como eu. Além disso, existem centenas de sites, jornais, panfletos e santinhos de políticos resenhando filmes da mostra neste exato momento. Todos melhores que eu... até os santinhos de políticos (sugiro, aliás, que visitem o Omelete para obter críticas interessantes e longe de serem petulantes como as que existem por aí).

É por isso que farei algo que vocês jamais verão num jornal. Algo que duvido que encontrem noutro site. Algo que interessa ainda menos que resenhas de filmes que jamais entrarão em cartaz nos cinemas brasileiros. Apresento-lhes:

Uma análise fiel das poltronas da mostra internacional de cinema
- por Jayme Freire & seu traseiro.

Centro Cultural São Paulo
Torça, para que nenhum gigante se sente à sua frente, ou para que você adquira uns 30cm em 30 segundos, já que a sala não possui uma inclinação excepcional. As poltronas em si, entretanto, são até que confortáveis.

Nota: 7

Cine Bombril
As poltronas fazem jus ao nome da sala, Cine Bombril. É como sentar num monte de bombril... Não que sua bunda fique coçando o tempo todo (e, acreditem, sentar em Bombril coça à beça... não me perguntem o porquê), mas o problema é que simplesmente não existe posição confortável para aquele que se aventura a assistir uma película no cine bombril.

Nota: 4

Cinemateca
É difícil falar mal da Cinemateca. É um lugar bacana, cheio de filmes alternativos e, de quebra, possui um logo um tanto "curioso". Se você não gostar das poltronas da Cinemateca, ainda dá pra tirar um sarro do logotipo.

Nota: 8

Cinesesc
Se foi difícil falar mal da Cinemateca, do Cinesesc é impossível. Minhas nádegas se acalentaram nas negras poltronas desta aprazível sala de cinema durante as 3h da exibição de “O Poderoso Chefão” e não reclamaram.

Nota: 9

HSBC belas artes
Esse lugar tem escada em todos os lugares. Fiquei com medo de ir ao banheiro e me deparar com degraus para ter de usar o mictório. Mas, ok... Suas poltronas não são tão desconfortáveis. O que irrita é o fato de que há um baita vão bem no meio do cinema (fato que ocorre em outras salas, mas eu não queria me repetir), tornando impossível o desejo nerd de sentar-me bem no meio da sala.

Nota: 6 (e estou contando as escadas)

Unibanco Arteplex
Inclinação fantástica (nenhum gigante me atrapalhou e nem atrapalhará), poltronas confortáveis e monitoras bonitas. Gosto do Arteplex de verdade. Perceberam que sou completamente imparcial?

Nota: 9

Cine Olido
IG Cine
Espaço Unibanco Pompéia


Não tenho a menor idéia. Esses lugares são simplesmente longe demais. Tenha dó.

Nota: 0
(porque minha bunda reclama ao saber que terá de andar tanto até chegar a esses locais)


Nota: Falando sério, assistam ao genial “Queime Depois de Ler”, o tragicômico “Confissões de Super-heróis” e ao verborrágico (porém bacana) “Casamento de Rachel”. Outras indicações serão feitas assim que meu traseiro se recostar sobre mais poltronas. Grato.


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Terça-feira, Outubro 14, 2008



Como Escrever e Enganar Pessoas

Dia desses um amigo e leitor deste blog veio até mim com os seguintes dizeres: “Eu não consigo escrever.”. Rapidamente tentei me lembrar do que diabo ele fazia durante nossas aulas de gramática em todos os anos em que estudávamos juntos, entretanto, minha mente passou a divagar sobre outros assuntos. Se aquele sujeito não sabia escrever, era bem possível que muitas outras pessoas sofressem com o mesmo infortúnio... E se alguém os ensinasse, este poderia obter lucro fácil. Tais quais os charlatões de O Segredo, ou os larápios de Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, ou a gatuna que escreveu todos os livros de Harry Potter até hoje. Ademais, fingindo conhecer uma fórmula que a maioria das pessoas acha que existe, eu poderia me tornar o David Ball abrasileirado, o Syd Field tupiniquim, o Raul Gil da dramaturgia.

É por essas e outras que trago a vocês, ao preço módico de R$49,99 por etapa, o:


Dominando A Escrita Em 5 Mil Etapas
Etapa 1 – Requisitos Mínimos

Para domar a chucra escrita, é necessário que o aspirante a escritor possua os seguintes itens:

• Caneta.
• Mãos.
• Superfície branca e plana, sobre a qual escrever (atenção, paredes não estão inclusas neste item, dado o fato de que apenas crianças e malucos de filmes hollywoodianos nelas escrevem).
• Domínio básico da gramática e de suas variáveis (não se preocupe em estudar demais, o Microsoft Word é capaz de corrigir vários erros gramaticais).
• Um tema (acredite, escrever sobre o nada é mais difícil do que parece... apesar d’eu fazer isso há seis anos, no mínimo).
• Uma consciência (seres inanimados não são aptos a escrever).
• Gordo saldo bancário (afinal, você terá de pagar pelas próximas etapas).

Nota: Por motivos publicitários e samaritanos, a primeira etapa foi um presente cedido aos incomensuráveis leitores deste blog. Um abraço.


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Quarta-feira, Outubro 01, 2008



Extra, Extra!

"Federação de cegos pede boicote a 'Ensaio sobre a Cegueira' "

Em carta aberta à imprensa - ou àqueles que são capazes de ler em braile - a Federação de Cegos diz estar tremendamente revoltada com a maneira que Fernando Meirelles e sua trupe decidiram retratar seu grupo na adaptação cinematográfica de "Ensaio Sobre a Cegueira". "Nunca vi tamanho desrespeito", disse um dos membros da Federação, cego de nascença.

Meirelles, no entanto, pede desculpas pelo desentendimento e garante que seus erros serão reparados na sequência do filme "A Cegueira, de fato", filme já em pré-produção. Em entrevista ao fantástico departamento jornalístico do Portal Terra, Meirelles garantiu "As pessoas têm de entender é que esse é apenas o Ensaio... Imagine quando a coisa estiver nos trincos!".

Os produtores do filme e a distribuidora, Miramax, também se pronunciaram ante o boicote promovido pela Federação. "Se nem os cegos querem ver nosso filme, alguma coisa está errada.", disse um de seus portavozes, também conhecido como Acessor de Imprensa, ou capacho, ou, também, pau-mandado.

Para mais informações , cliquem aqui..


Nota: O filme é bom. Para mim é óbvio que os cegos simplesmente não o viram.


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Sábado, Setembro 20, 2008



Bate Daí

“Bate daí!” era esse o bordão exclamado a cada cinco minutos por um dos torcedores mais inflamados que o Bar do Bigode viu em muito tempo. Ao menos foi o que pensou Róbson, ao adentrar o bar numa de suas inúmeras visitas dominicais à necessária boemia.

O animado torcedor havia se instalado em uma mesa a poucos metros do velho aparelho televisivo, que, quando não estava exibindo chiados e estática, revelava aos presentes a brava partida entre os meninos de Taubaté e Corinthians, pela final da Copa São Paulo de Juniores. Na capital, o cenário não poderia ser melhor. Pacaembu lotado – com presenças instigadas pela gratuidade dos ingressos -, 2x2 no placar, apenas meia dúzia de faltas para cada lado e a gana latente dos meninos que corriam por um sonho. O contraponto perfeito encontrava-se na modesta cidade de Mirestrela, num boteco que recebia cinco clientes em dias movimentados, que exibia num jarro sujo o mesmo ovo em conserva há mais de um ano e onde o agitado homem sentado próximo ao televisor parecia torcer pelo mesmo sonho.

Não demorou muito até que Róbson, um dos cinco freqüentadores fiéis ao Bar do Bigode, instigado pela curiosidade, questionasse Mathias sobre a identidade do mais novo cliente.

“Esse aí é o Seu Xavier”, respondeu Mathias, “aquele chaveiro, sabe? Acho que é pai dum dos meninos que ta jogano.”. Róbson tornou a observar o homem, que se levantara por alguns segundos, para então gritar “Chuta! Qué dizer, passa! Isso! Isso!”.

“Taí desde do começo do jogo”, voltou a explanar Mathias, “ficou puto quando a T.V. chiou uns 3 segundos no intervalo.”. Ao que, após um gole de cerveja e abrir um pequeno sorriso de escárnio, Róbson respondeu “Sorte que ele não veio no Orindiúva e Taubaté, então. Naquele jogo a T.V. só pegou no intervalo.”. Mathias olhou para ele com frieza e, resmungando, afastou-se, deixando Róbson a observar, solitário, Xavier e seus gritos.

Poucos minutos depois o estabelecimento ouviu o apito estridente vindo do aparelho, sinalizando o encerramento do tempo normal e, como o empate ainda vigorava, a prorrogação da aflição de Xavier. Róbson aproveitou a chance e logo se sentou à mesa do objeto de sua atenção com dois copos de cerveja e uma pergunta nos lábios.

- Quem é teu menino? – questionou.

- É o número 7 – disse Xavier, apontando para a T.V., que coincidentemente mostrava uma imagem capturada pelas câmeras do jogador número7, “Alê”. -, e agradeço, mas não bebo... Parei quando meu filho era garoto.
- E é?

- Aham – afirmou o torcedor – Tive que parar. Também não fumo há uns seis anos. Não dá pra gastar nessas coisas e na escolinha de futebol, sabe como é.

- Uai, e por que não botou o moleque numa peneira? Eles até recebem pra jogá bola, sabia não?

- Sei, sei. E fomos a várias peneiras. Fui a umas cinco com ele e, quando o time que promovia o teste ficava numa cidade muito distante, eu só conseguia dinheiro pra mandar o menino.

- Oxe...

- É! Hoje ele está aí, no Taubaté! – disse Xavier apontando para a televisão, que agora exibia comerciais e, vez ou outra, saía e voltava ao ar. - Mas é o craque do time, pode ver. Fez nove gols. Mas não foi fácil. Passei aperto, vendi meu carro, trabalhei em dois empregos. E quando ele conseguiu a vaga no time, minha sobra brigou porque queria o garoto aqui. Imagina!

- Mas sogra que se preze é assim mesmo. Faz o papel do capeta na terra. - Róbson sorria, maravilhado com o diálogo fluente – O moleque demorou pra dar certo então?

- Demorou nada, rapaz! – bramiu Xavier – Sempre foi bom de bola! O problema é que só eu via! Pois fui eu quem ensinou a tocar de chaleira, a chutar com o peito do pé e a pedalar. Mas esses times só querem saber de jogador com empresário, moleques engravatados que só sabem dar pontapé. Passei meses conversando com a diretoria do Taubaté pra conseguir uma vaga para um garoto que é bom de bola, imagina!

Naquele exato instante, o locutor da emissora de televisão anunciou a volta dos times a campo para iniciar a disputa de penais. O Corinthians começava com o batedor escolhido, proporcionando ao time de Taubaté a última cobrança. Informação que pouco importava. Xavier queria saber apenas do destino de seu primogênito e se o técnico não fora estúpido o bastante para deixá-lo de fora. O pai do jogador, no entanto, não estava preparado para a informação subseqüente. Alê, o jogador da camisa 7, seria o último cobrador.
“É agora!”, Xavier exclamou, enquanto Róbson voltava à posição de simples observador. O Corinthians acertou suas quatro primeiras cobranças, mesmo feito do glorioso time de Taubaté, e Xavier não poderia encontrar-se mais alheio ao acontecido. Um corintiano mirrado, com o nome “Júnior Filho” estampado na camisa, no entanto, tropeçou ao bater na bola, fazendo com que esta acertasse em cheio o travessão, anulando uma das cobranças do time alvinegro e transformando a cobrança de Alê em algo ainda maior.

Enquanto a imagem do menino deixando o centro do campo era transmitida, Xavier exalava ansiedade. Quando o garoto agarrou a bola para efetuar sua cobrança, seu pai lembrou-se de todos os momentos em que levara o filho ao campo de várzea perto de sua casa. Assim que o junior posicionou a pelota na marca, o chaveiro pensou em todos os artigos esportivos que comprara ao longo dos anos. Logo que o camisa 7 tomou distância para bater, Xavier relembrou de cada metro percorrido a procura de um time para seu filho. No momento em que Alê bateu na bola, imagens de anos de torcida, suplício e aflição percorreram o cérebro do novíssimo cliente do Bar do Bigode. E assim que o gol foi confirmado, o alívio percorreu seu corpo.

Xavier gritou para espantar toda a tensão que acumulara em anos de ensinamentos, rusgas, testes e tribulações. E quando seus olhos, inundados por lágrimas cheias de felicidade, voltaram a mirar a televisão, pôde ver um repórter aproximar-se aos trancos de Alê, o camisa 7, o filho de Seu Xavier, e perguntar:

- Você tem alguma coisa a dizer neste momento?

Seu filho era, finalmente, campeão. Seu filho era, finalmente, o camisa 7. Alê era jogador de futebol e, como tal, respondeu, enquanto seu pai, o Bar do Bigode, todo o Pacaembu e, quiçá, o país, assistia em silêncio:

- Beijo, Mãe!


Nota: Este texto é uma adaptação de uma performance stand-up de Bill Cosby.


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Quarta-feira, Setembro 10, 2008



Perversão

Tarde demais para voltar atrás, olhei-o nos olhos para dizer aquilo. Seu sorriso, de poucos segundos antes, fora sobrepujado por minha fileira de 32 dentes, intermitentemente cobertos por minha língua afiada. Pois, eu também, sorri ao destilar meu veneno. Mas sorri ao ver que escutava sem fazer ressalvas.

Pego de surpresa, ele não esboçou reação. Daí minha perdição.

Senti meus dedos se fecharem contra a palma de minha mão - como que para lhe estender o punho - mas um deles, o indicador, permanecera em riste; armado ante aquele que nada fizera além de me apresentar um falso juízo.

Pensei em parar. Imaginei-me pedindo desculpas. Era tarde demais. Eu já brandia minha arma. Revidei seu pré-juízo com meus próprios. Na ânsia de não ser julgado, julguei. Condenei. Sentenciei. E vestindo o capuz de carrasco, executei sua sentença humilhante.

Vibrei com sua derrota. Agitei-me ao vê-lo de joelhos. Era isso o que queria. Tarde demais. Minha boca continuou. Minha língua amolada. Palavras voaram de minha garganta. Crivando-lhe de truísmos. Cobrindo-lhe de moralismo. Despejando antigos fatos. Estendendo velhos erros.

Mão cerrada. Falange estendida. Sorriso aberto.

Quando voltei a mim – ou ao meu eu anterior, pois eu nunca deixara de ser eu -, percebi o quão grotesca era a cena. Ele, e seus olhos arregalados de surpresa, parado... E eu, apontando-lhe o dedo içado. Com outros três, porém, apontando em retorno, em minha direção. Era tarde demais para voltar atrás.


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Sábado, Agosto 30, 2008



Carta Aberta a Jorge

Exmo Sr. Bush,

Antes de chegar ao ponto em quero chegar, devo desculpar-me. Desculpar-me, sim. Não pela redundância, mas por tomar teu tempo. Teu e do sujeito que lerá esta carta em voz alta para ti. Bem sei que andas ocupado o suficiente com teus afazeres, tal qual a árdua tarefa de restaurar a liberdade no Iraque – sabe-se lá porque é que aquela gente não quer ser livre, não é mesmo? –, a administração de tua fatia do Afeganistão, praticando bocha e, recentemente, te preocupando com os malditos Russos que encrencaram com a Geórgia. Também tenho conhecimento de que falta pouco tempo até a próxima eleição e que, um cara normal, simplesmente estaria de saco cheio de ser presidente e tomar sapientes decisões por todo esse tempo. Mas é por isto que te escrevo e escrevo com urgência.

Entende, há algo que me intriga na política mundial e na maneira que ela – principalmente os liberais transexuais da ONU – trata os déspotas deste planeta. Milosevic governou a falecida Iugoslávia durante muito tempo sem ser incomodado – nunca tocaram sua campainha para perguntar se estava tudo certo -, enquanto Pinochet cansou de fazer seus churrascos dominicais em estádios futebolísticos chilenos, sem que questionassem, sequer, a qualidade do que dizia ser picanha – que todos sabiam que não passava de ponta de peito -, e Alberto Dualib deitou e rolou no comando do Corinthians por décadas – literalmente... Dualib adorava rolar pelo gramado. Agora, no entanto, venho chamar-te a atenção a um sujeito que está no poder há anos - desde meus três anos de idade, pelo menos -, um déspota tão sanguinolento que sua preferência por vestimentas da cor vermelha é famigerada, um ditador tão cruel e doentio que possui listas e mais listas contendo o nome de inúmeras crianças de todo o mundo. Seu nome é Noel e tu já deves conhecê-lo.

Quando pequeno meus pais costumavam a contar histórias sobre esse monstro natalino, que preferia ser chamado por seus queridos infantes de – pasme! – “Papai Noel”. Algumas dessas histórias tratavam de como o sujeito se enfiava dentro de chaminés para conseguir adentrar as confortáveis residências de nobres e inocentes famílias e, uma vez lá dentro, comia todos os biscoitos e bebia todo leite que encontrasse, para, depois, depositar pela casa o que chamava de “presente de natal”. Outros contos, ainda mais macabros, contam como o sujeito observava a todos os infantes, sem que um só momento lhe escapasse. “Papai” Noel não só é um pedófilo tarado, é também um enorme voyeur.

“Mas o que isso tem a ver comigo”, tu perguntas, caro Sr. Bush – posso chamar-te de Jorge? – caro Jorge. É simples: tudo. Sim, tudo. Tudo mesmo. É sério. Além de ser um perigo, uma ameaça para todas as crianças do mundo, Sr. Noel é, também, um déspota. Seu reinado no pólo-norte já dura gerações – pelo menos 20 anos, como eu já disse – e não dá sinais de que há de se encerrar. Quem o elegeu? Quem o indicou? Quem morreu e colocou-o no poder? Quando me pus a pensar sobre o assunto, veio-me a resposta. Noel aproveita-se da fria e remota paisagem do pólo norte para manter seu longevo poder. Afinal, no pólo-norte ninguém pode ouvi-lo gritar. Foi Winston Churchill quem disse isso, se não me engano... Bem, enfim: Fato é que Noel emprega pequenos elfos em sua fábrica, forçando-os a trabalhar o ano todo na criação de seus malévolos “brinquedinhos”; obriga sua mulher a ficar em casa o tempo todo, preparando biscoitos de gengibre e outras drogas caseiras; e açoita tanto suas pobres renas a ponto de fazê-las voar.

Sr. Bush... Digo, Jorge, imploro para que ouça teu coração – ou teu bolso... Ouvi dizer que há petróleo no pólo-norte... Mas vá saber – e toma medidas para que – leia “bombardeia o lugar até que” – o povo nórdico resgate o poder sobre seu próprio destino – mas somente após 30 ou 50 anos sendo governados provisoriamente pelos EUA, é claro. Pois a mim é óbvio que os afrescalhados da ONU sequer encostarão um dedo no tirano rubro. Eles sequer têm um exercito! E sabemos o que pensar de organizações sem exércitos: são péssimos companheiros numa partida de WAR.

É por isso que te escrevo. Pense nas renas, pense nos elfos, pense na Mamãe Noel, pobre usuária de drogas e gengibre... Pense nos pingüins e nos... Ahm... Bem, quem mais morar naquele lugar frio dos diabos.

Sinceramente
Um abraço,
Jayme Freire.

Nota: Se aceitares minha sugestão, escreve-me. Precisamos bater um papo sobre uma mulher que se intitula “Fada dos Dentes”.


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Terça-feira, Agosto 26, 2008



Os Adoradores do Bezerro Dourado

Quando lá cheguei, todos prontos estavam. As mulheres dançavam, os homens bebiam, as crianças brincavam e eu... Bem, eu procurava meu lugar naquilo tudo. Cumprimentei-os um a um; alguns com sinceros apertos de mão, outros com abraços manufaturados. Não demorou até que me convidassem a falar e, assim que comecei, os poucos que ouviam trataram de me corrigir. Errado estava eu, pequeno playboy, aspirante a cineasta, branco de classe média alta, liberal radical, carregado de preconceito e pré-juizos. Errado estava eu, ao afirmar meus pensamentos em voz alta. Meu papel, mal sabia eu, era o de concordar, abaixar minhas orelhas e comprar mais uma cerveja.

Tentei explicar que eu não sou meu pai – ele é um sujeito bem melhor do que eu – e que nada do que “tenho” eu, de fato, possuo. Tentei dizer que não busco sucesso... Que acho que isso é para quem ainda sonha em ser alguém que não é. Eu quero apenas ser quem sou. Apenas eu, não as conquistas de outra pessoa. E quando nada disso funcionou, tentei mudar de assunto. Mas sequer me ouviram. Só riram e beberam e dançaram e apontaram e gritaram. Mas não ouviram.

Assim, me retirei. Levando comigo todo meu preconceito, todo meu moralismo, toda minha pachorra, a audácia de tentar ser um indivíduo, e, ao mesmo tempo, pensando no que iria dizer, no que creio por certo e no que vejo como justo. Opiniões que nada valem.



Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
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Terça-feira, Agosto 19, 2008



Esdrúxulas Histórias do Fim do Mundo
Parte III

Com evidentes olheiras, que revelavam seu cansaço e estampavam as inúmeras noites mal dormidas pelas quais passou, Arantes fitava o interior de sua mochila recém-saqueada com toda sua concentração. Sua pausa ocorrera assim que suas mãos passaram rapidamente ante seus olhos, dando-lhe, assim, uma clara visão do quão magro ficara naqueles nove meses que se sucederam à invasão. “Invasão”, que por outros foi chamada de epidemia, e alguns, mais literais, batizaram de “maldita segunda-feira em que zumbis surgiram do nada e atacaram todo o mundo”, referindo-se à maldita segunda-feira em que zumbis surgiram do nada e atacaram o mundo todo.

Poucos segundos bastaram para que o 20kg mais magro (o que lhe dava uma aparência semelhante à de Lobão numa semana de jejum), Arantes, saísse de seu estupor e voltasse à imunda realidade a que se encontrava acorrentado. Arantes sabia, como ninguém, que, mesmo à luz do dia, não era bom afastar-se por muito tempo da realidade. Realidade que exibia-lhe sua mochila e o pé-de-cabra dentro dela, ferramenta tal que Arantes pretendia usar para abrir a porta lacrada da estufa situada no quintal dos fundos da casa de se vizinho vegano, na esperança de encontrar ali alguns nabos, um pouco de alface e suprimentos para plantações futuras. Só faltando-lhe um pouco de molho para saladas... Mas podia conviver com isso, pensou.

Sem mais delongas, um dos poucos sobreviventes da maldita segunda-feira em que zumbis surgiram do nada e atacaram o mundo todo, puxou o pé-de-cabra para fora da mochila e o fixou entre a porta e o batente. Empurrou, puxou, chegou até a colocar todo seu peso (que não era muito, como expliquei) na ferramenta. Mas a porta sequer tremia. Arantes, então, tomou fôlego e distância, olhou para a ponta solta do pé-de-cabra fincado à estufa e correu até ela. Ouviu-se um estrondo e, após retomar consciência, Arantes reparou que seu novo esforço de nada adiantara. A porta permanecera fechada, seu pé-de-cabra apenas se soltara do batente.

Frustrado, Arantes passou a praguejar e a desejar ter um chapéu, para que pudesse pisoteá-lo como Seu Madruga o faria. Algo, porém, retirou qualquer pensamento de Chaves que pudesse habitar sua cabeça naquele instante.

- Por que você não quebra a janela? – perguntou a voz que o pegara de surpresa.
Assustado, Arantes recuou e olhou ao seu redor, podendo ver uma única figura acinzentada perto de si. Era um zumbi.

- Digo... é uma estufa, pelo amor de deus. Você realmente quer passar pelo único ponto que é feito de madeira? – continuou a criatura.

Arantes arregalou os olhos e sufocou um grito que nascia em sua laringe. Gritar poderia atrair mais deles e, pior, poderia fazer com que o zumbi falante parasse de falar e tivesse a brilhante idéia de come-lo.

- Saia daqui, criatura do capeta! – resmungou Arantes, à procura do pé-de-cabra, a única arma que trouxera em sua expedição. – Eu tinha um pé-de-cabra, e não tenho vergonha de usá-lo... Se o encontrar.

- Tá ali, à sua direita. – respondeu o humanóide recém-falecido.

- Ah, obrigado... – agradeceu Arantes, correndo para pegar a ferramenta enferrujada e parando pouco antes de realizar tal ato, ao perceber algo óbvio. – Peraí... Você... Fala?

- Não, sou um fantoche... tem um ventríloquo aqui atrás, falando por mim.

- Mas... Mas... Zumbis não falam. Eles... digo, vocês... Sempre me atacaram assim que me viram.

- Olha, Arantes, dizer que zumbi não fala é como afirmar que viu um saci andando de patinete... Sem tirar.

- Como você sabe meu nome?! – Arantes perguntou, surpreso ao ver seu ser pronunciado pela bocarra horrenda, um misto de pele retorcida e ossos decrépitos, do monstro.

- Porra, Arantes. A gente virou zumbi e você ficou burro? Sou eu, Pereira. Seu vizinho.

- Pereira...? É você mesmo?

- É por isso que você continua vivo. Quem iria comer um cérebro desses?

- Pereira... Mas... Como? Como você consegue falar? Nenhum dos outros falava... – perguntou Arantes assim que retomou o poder sobre seus pensamentos, forçando-os a voltar à questão do diálogo necrófilo.

- Arantes, meu filho. Eu sou vegetariano... Lembra?

- E o que isso tem a ver com você aqui, falando?

- Ué... Não quero te comer, é simples.

- Como assim?

- Arantes... Você já conversou com uma bisteca? Ou com uma porção de carne-moída? Que tal com o pastel de carne do Seu Domingos? Já?

- Ahm... Não que eu me lembre.

- Pois então. Eu não quero te comer... Portanto consigo conversar contigo normalmente. Já os outros...

- Para eles eu não passo de Filet Mignon? – perguntou Arantes, tentando absorver todas aquelas informações de uma só vez.

- Eu não diria Filet Mignon... Você é tipo um churrasquinho grego... Só que vivo... E sem o pãozinho.
- Meu deus! – exclamou Arantes, mesmo sendo ateu – Eu nunca tinha pensado nisso.

- Viu? É por isso que você não é um Filet Mignon... – observou Pereira.

O alívio com a descoberta de Arantes, todavia, duraria pouco. Subitamente, um grupo de zumbis famintos saiu de dentro da casa de Pereira, alguns deles usavam camisetas do Palmeiras e, outros, camisas multicoloridas da Mancha Verde.

- Pô, Pereira! Tá fazendo um churrasco e nem chamou? – perguntou um deles, enquanto os outros grunhiam em afirmação.

Os ossos de Arantes congelaram, suas mãos agarraram firmemente o pé-de-cabra e seus pés se moveram para trás.

- Pereira, fala alguma coisa! – pediu Arantes, - Avisa que sou seu vizinho... pelo amor de Deus.

- E dizer o quê? Que o churrasquinho grego deve ficar vivo? - questionou Pereira – Além do mais, eu não tenho comida pra essa gente toda... eles vieram ver o jogo sem avisar.

- Pereira, por favor... – implorou seu vizinho – Eu devolvo as ferramentas que peguei emprestadas ano passado.

- Não, pode ficar – respondeu o zumbi vegano – Acho que acabo de ganhar um pé-de-cabra.

E, assim, Arantes foi devorado por 5 palmeirenses zumbis. Destino mais cruel que este, não há.


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Quinta-feira, Agosto 14, 2008



Este aviso vem com um tanto de atraso, mas antes tarde do que nunca.

Estou empenhado em resolver alguns problemas que me assolavam (e assolam) na produção deste blog. Se tudo der certo, até semana que vem, voltarei a postar normalmente (leiam "escrever as mesmas besteiras de sempre").

Um abraço,

Jayme.


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Terça-feira, Julho 29, 2008



A Produção do Impossível

Dentro do carro abafado, meus olhos miram constantemente o pequeno boneco preso ao retrovisor interno. Ele chacoalha a mais leve freada, curva ou solavanco que o automóvel produz, e isso é o suficiente para chamar minha fugaz atenção por vezes seguidas. Isso porque sinto que meu pensamento não quer pensar, minha boca não quer falar e minhas mãos fogem de seu dever, mas ainda assim sou capaz de baixar o volume do cd player e agarrar o telefone celular. “Susie Q”, entretanto, continua a tocar baixinho, num tom quase imperceptível, mas alto o suficiente para captar a mesma atenção que teima em me fugir a todo instante.

Desvio o olhar do aparelho de som e olho para meu celular. Enquanto forço meus dedos a digitar seu número, insistentes lembranças da noite passada brotam em minha mente, como feijões conseguem brotar em algodão molhado, sabem?

Recordações de como ela sorriu com a única piada que fui capaz de fazer naquela noite, de como insisti para que conversássemos e do cheiro maravilhoso que seu cabelo exalava quando ela se aproximou para me passar seu telefone agarravam e arraigavam-se em minha mente, enquanto eu aproximava o fone à minha orelha.

Quando ouvi o primeiro toque, perguntei-me se não devia desligar. Falar ao celular e dirigir não só me daria uma multa desgraçada, mas também poderia causar um acidente.

Quando ouvi o segundo e o terceiro toque, minha mente discorria sobre outro tipo de acidente. O que seria causado caso ela atendesse.

Ao ouvir o quarto e quinto toque conclui que não tenho tempo, paciência ou fôlego suficiente para um relacionamento, e tudo o que aquilo podia gerar era isso. Um relacionamento. Desses falidos, que me obrigariam a falar ao celular enquanto dirijo um carro.

Foi no sexto toque que minha mente saiu do inexorável acidente emocional e voltou ao possível acidente físico. Se eu fosse obrigado a falar ao celular enquanto dirijo, estaria perdido. Não dirijo tão bem assim. Não consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo. Não consigo, sequer, esperar muito tempo ao telefone antes de alguém atender.

Antes do sétimo toque minhas mãos finalmente cederam, desligaram o aparelho que seguravam e prontamente aumentaram o volume do cd player, que agora tocava “I Heard It Through the Grapevine”. Meus olhos voltaram a mirar o boneco preso ao retrovisor e admirar sua dança com os solavancos do carro. E minha mente retomava o caminho de sempre; o de lembrar do perfume de seu cabelo para, logo depois, refutar a idéia de que ali poderia residir qualquer indício de futuro.



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Terça-feira, Julho 22, 2008



Nova visão do velho mundo

Tudo muito bonito no velho continente. Tudo muito bom, tudo muito nobre. Tudo muito falso no velho continente.

Falso, porque vi os trambiques da França, onde as pessoas são tão inteligentes que até as crianças falam francês, vi o Alzheimer espanhol e a pressa italiana. Falso, pois a Paris dos subúrbios negros e árabes, com metrôs regados a urina, não é a Paris das velhas turistas obesas e consumistas. Não é. Falso... Mas bom, ainda assim.

Bom, pois fiz parte de algo maior que eu. Pois vi o sol se encolher às 10 da noite e se esticar novamente às 5 da manhã. Pois testei a mim mesmo e a minhas pernas. Pois chegamos - por mais brega que isso soe - ao limite da comunicação, com frases cacofônicas na Holanda e mímicas na Itália. Bom, porque cresci. E voltei pra contar história.




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Terça-feira, Junho 17, 2008



Olá, argutos leitores! Como vão vocês? Felizes?

Venho, por meio deste post - que nem bem é um post, e eu nem tinha que explicar isso... simplesmente adoro digressões - avisar-lhes que me ausentarei durante um longo período de tempo.

E não, desta vez minha desculpa não é a preguiça.

Viajarei numa jornada espiritual até Uganda e não retornarei tão breve. Mas prometo a vocês que este blog estará recheado de fotos, quinquilharias, bonecos vudus e bobeiras pessoais do tipo, assim que retornar.

Enquanto isso deleitem-se com todos os posts que vocês ignoraram deste blog.

Um abraço,

Jayme (sim, o mesmo sujeito que assina todos os post deste troço...)


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Domingo, Junho 08, 2008



Babel

Só me interesso pelo improvável, me apaixono pelo impossível. Só me aproximo do intangível, me apego ao que me é distante. Só a dor me aguça os sentidos, só a ausência me inspira, só a impotência me faz querer, só a dificuldade me faz agir, só a impassibilidade me revela o estar só.

Irônico, pois agora, enquanto escrevo estas linhas e você dorme, sei que consigo pensar em alguém às 5 da manhã dentro de um vagão de metrô. Do contrário, se houvesse afeto maior do que um par de abraços forçados, de dedos estralados, olhares trocados ou sorrisos roubados, meu querer permaneceria imaculado.

Mas, não. Gosto é do estrago, gosto é do desarranjo, aprecio a balburdia e a desordem tomando conta de minha vida. De que me adianta querer quem me quer? Que bem me faz me deixar levar pelo que já conheço? Ao invés - meu revés -, prefiro mergulhar no desconhecido, correndo todos os riscos de afogamento.

Só me interesso pelo improvável, me apaixono pelo impossível.


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Segunda-feira, Junho 02, 2008



Eu, o Homem de Lata e meu Avô

Devo dizer que os comentários deixados por vocês, argutos leitores, no último post deram a entender que sou um sujeito sem coração. O que é um tanto cruel e desumano de sua parte, mas ok. Sou um sujeito com autocrítica, consigo perceber quando salgo demais minha pipoca ou então quando me obrigam a ver que há algo de errado com minhas aurículas. Tanta autocrítica tenho que, certa feita, multei a mim mesmo por atravessar a rua sem olhar para os lados. Portanto saibam que, apesar de tentarem, vocês não conseguiram ferir meus sentimentos. Até porque sentimento é algo que alguém sem coração não possui.

Mas fato é que me coloquei a pensar - fato raro - após ignorar sua ácida tentativa. Se eu não tenho coração... Aonde é que este teria ido? Será que perdi durante uma eletrizante partida de gamão? Ou alguém entrou em meu apartamento durante a noite e substituiu meu órgão vital por um cacto, ou por um pedaço de argila, ou então por um hamster, com aquelas rodinhas... Sabem? A questão é: o que houve com meu coração?

Tentei assistir ao Mágico de Oz, pois me disseram que o Homem de Lata também não possuía um coração. Mas, convenhamos, no mundo de Oz existem macacos alados... E qualquer mundo em que macacos andem - ou voem - por aí com asas, um coração não é algo tão importante assim, não? Portanto descartei qualquer solução advinda desse filme nefasto.

Tentei, então, realizar uma boa ação... Mas não conheço muitas velhinhas que queiram atravessar a rua. E como é a única boa ação em que sou capaz de pensar, prontamente mudei de idéia.

Restou-me ligar para minha avó e pedir conselhos à simpática mulher - ou isso, ou pedir que tentasse atravessar a rua comigo por perto.

- Vó! - exclamei assim que atenderam ao telefone.

- Hã? - perguntou a voz masculina do outro lado da linha.

- Ah, oi vô - disse assim que entendi que minha avó não tinha mudado de sexo, era apenas meu avô atendendo ao telefone. - Minha vó taí? Preciso falar com ela...

- Alô!? - ele respondeu - É o Zé Pinto?

- Não, vô! É o Jayme...

- Ah, perdeu o "Pinto"? - e ainda perguntam de onde tiro meu senso de humor... Mas, ok.

- Não, vô... Tá aqui ainda - respondi apressadamente - Eu queria falar com minha avó. Andam dizendo por aí que não tenho coração.

- Não tem o quê?

- Coração, vô! Acho que tem algo de errado com os ventrículos... Por aí...

- Você está tendo problema com alguns ventríloquos?

- Não, não... VEN-TRÍ-CU-LOS.

- Aah, por que não disse logo? É do coração, é?

- Isso aí, vô. Pessoal anda dizendo que não os tenho... Os ventrículos, digo.

- Mas que coisa cruel a se dizer...

- Pois é, eu sei... Desalmado, não?

- Demais...

- Enfim, a vó taí?

- Tá não, meu filho. Mas não pode ser comigo? O que vc queria com ela?

- Ahm... - eu disse após ter certeza de que já havia dito isso - Andam dizendo que não tenho coração...

- Não tem o quê?

- Coração, vô... Coração..

- Mas claro que tem, meu filho! E aquela vez em que você doou todo o dinheiro que tinha para instituições de caridade?

- Ahm.. - novamente esitei - Não fui eu... Acho que você leu no jornal...

- É, faz sentido. Mas e quando ajudou sua avó a atravessar a rua?

- É, mas já faz tempo...

- Lembrei! Teve aquela vez em que você teve a idéia de fazer uma boa ação para três pessoas, e essas três pessoas teriam de fazer boas ações para outras três pessoas e assim por diante? Fazendo do mundo um lugar melhor... Lembra não?

- Ahm... Claro, claro! - disse antes de agradecer e desligar o telefone.

No fim das contas, nunca lhe contei que aquela era a trama de "A Corrente do Bem" e que o menino morre no final do filme, por não querer decepciona-lo. E porque contar o final do filme para os outros é um pecado venial.

Viram? Vai ver eu tenho um coração... Mas o reservo para os momentos inoportunos.


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Terça-feira, Maio 27, 2008



"Eu confio em você", uma amiga diz.

O que acho curioso, afinal nem eu confio em mim mesmo. Mas ela diz que confia e abre um sorriso fraterno. Eu sorrio de volta.

Acontece que simplesmente não me importo. Não me importo e não entendo. Sequer acredito em confiança cega. Entendam, pessoas mudam. Heráclito disse, ou escreveu, ou ditou... Sei lá... Que é impossível banhar-se num mesmo rio duas vezes. Pois mudamos o tempo todo. O rio muda o tempo todo. O tempo muda o tempo todo. Logo, se tudo isso vive a se alterar, tudo se contradiz. E como confiar em algo que retira o que diz simplesmente por não crer mais no que cria? Como confiar no tempo, que, relativo, passa mais rápido para o sujeito que simplesmente pretende jogar uma partida de truco? Acredito, assim, em crendices volúveis, nada mais. Acredito em crenças que são reflexos difusos de erros e falhas pessoais. É uma das poucas coisas em que acredito. Em confiança, como já disse, não acredito.

É quando tento explicar essa pequena versão que agreguei às minhas poucas crenças, ela se espanta. "Acho egoísmo seu", ela diz, "ficar assim, não acreditando em nada... é egoísmo". Resolvo não dizer que há uma diferença entre em nada crer e crer em nada, e que, parafraseando o falecido Artur da Távola, "egoísmo" é outro nome para "equilíbrio emocional". Não que eu seja equilibrado e que não seja egoísta... Simplesmente não me importo muito. Pois nela não confio. Pois sei que logo não nos veremos mais. Pois há pouco troquei meu hedonismo infantilóide pelo niilismo recém-descoberto na gaveta. Talvez por serem esses meus reflexos difusos. Mas são neles em que creio. E por eles que não creio.

Ao menos por enquanto.


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Terça-feira, Maio 20, 2008



Os Poemas Perdidos de Piriac Comumnente
Parte II


A saga de Piriac Comumnente, para seu infortúnio, não terminaria com sua primeira correspondência a Adoração A. Rebites. Não. Dias após anunciar a descoberta da primeira das cartas, Patrick Vêdimais clamou ter encontrado, após intensa pesquisa, dura ponderação e alguns lanchinhos à tarde, outras centena de cartas endereçadas a Adoração, a quase-velada paixão do poeta Piriac e, junto disso, várias receitas de bolo, escritas pelo poeta em pessoa e publicada posteriormente com o título "Receitas de Bolos e Amargura. Uma tragédia culinária"

Segue-se a transcrição de uma delas:

"1 lata grande de ameixa-preta em calda
1 xícara de manteiga 1 xícara de porcelana, cheia de manteiga em temperatura ambiente
3 aljavas com açúcar mascavo peneirado
43 ovos
3 1/4 bacias com farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento em pó. A receita para "sopa de fermento em pó" encontra-se na página 17.
1 1/2 xícara de iogurte natural
2 claras - não me refiro a ovos, mas, sim, de mulheres chamadas "Clara".
1 copo de lata cheio de uva rubi
1 dedal contendo uva thompson
2 barris repletos de açúcar refinado
100 g de balas de goma sortidas, cortadas em fatias finas"

O título "Receitas de Bolo e Amargura" parece ser um trocadilho um tanto irônico sugerido por Vêdimais, uma vez que todas as receitas de Piriac demandavam 2 ou 4 barris repletos de açúcar refinado e/ou mascavo.

Todavia, nada disso é relevante, uma vez que nosso intuito é reiterar o amor que Comumnente sentia por Adoração A. Rebites. Um amor que superava a simples adoração, sugerida em sua primeira carta a concubina, filha de um ferreiro notório, Pestilentus A. Rebites; famigerado, não por sua habilidade com o manuseio e fundição de ferro, mas, por sua capacidade de assoviar e chupar cana simultaneamente. As primeiras cartas a Adoração, aliás, denotam a óbvia timidez de Piriac ao revelar seus sentimentos. É só na quinta vez em que se correspondem que Piriac Comumnente toma coragem para escrever mais de uma linha de galanteios: "Ps: Esqueci minhas meias em frente sua casa ontem à noite. Pode pegá-las para mim?", é o que diz o romântico escritor.

Já na décima quinta carta, Piriac é capaz de escrever até três parágrafos completos. São eles:

"Soroca, Moldávia
Bucareste, Romênia. 7 de Julho de 1609.

Cara Adoração A. Rebites.

Receio informar-te de que nosso amor continua sendo tabu. Nem numa centena de anos futuros permitirão que um pobre escriba como eu case-se com uma adorável mulher de vida fácil, como ti. Isso só será permitido daqui a 101 anos. E ambos teremos morrido quando tal dia chegar. Quero dizer... Eu viverei por muito, muito tempo... É fato. Mas tu provavelmente morreras ano que vem, já que foi corretamente diagnosticada com sífilis há algum tempo. Ó, vida cruel.

Sim! É verdade que tu és a concubina filha de um ferreiro ensandecido mais bela que já conheci. E não escrevo estas acres palavras apenas por escrevê-las, já conheci outras concubinas filhas de ferreiros insanos... E nenhuma delas possuía tua beleza absolutamente medíocre e quase imperceptível. Nenhuma delas possuía tua pequena verruga peluda ao lado da boca. Nenhuma delas desenvolveu rugas aos 14 anos de idade.

Não! Nem todas as concubinas filhas de um ferreiro maluco que já conheci seriam capazes de ofuscar tua beleza. Ó, minha rainha de voz grave e pêlos no buço. É por isso que tudo o que peço é que passe a corresponder minhas súplicas, querida amada. Já enviei-te cerca de 16 cartas - 15 por mim redigidas e um anuncio de pizzaria, que enviei-te por engano... Já pedi desculpas por isso - e nunca recebi um agradecimento sequer. Cheguei a pensar que o carteiro era o safado que andava roubando minhas cartas, mas, não. Pouco antes de morrer, vítima da peste, Bubus Onônica, o carteiro, me confidenciou que entregara todas as cartas a ti, pessoalmente.

Talvez! Talvez nossa total ausência de comunicação advenha do fato de ti, linda concubina filha de um ferreiro doido, ser analfabeta. Claro, alguns dirão isso. "Como poderia ela responder-te se nem sabe ler?", dirão. Mas, talvez a justificativa resida no fato de seres surda-muda e um tanto míope. Portanto nunca foi capaz de ouvir, ver ou falar em meu amor por ti.

Ó, adorável Adoração A. Rebites. Tudo o que quero é que aprendas a ler... E que passe a ouvir e falar como qualquer concubina normal, claro. Mas se puderes simplesmente aprender a ler, já está de bom tamanho.

Intensos Beijos,
Piriac Comumnente"


Esta é a penúltima carta enviada a residência de Adoração A. Rebites de que temos conhecimento. Adoração morreu dias após tê-la ignorado solenemente, tal qual fez com as outras. A última carta, que conclui a coleção "Cartas de Luxúria a Adoração A. Rebites", inclui um poema intitulado "Ode a Minha Mão Direita", indicativo primordial da solidão e desconforto que Piriac Comnumente sentiu após ter notícia do falecimento de Adoração. Sua única amada, a partir daquele momento, seria sua mão direita.


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Domingo, Maio 11, 2008



Os Poemas Perdidos de Piriac Comumnente
Parte I

Poucos disso sabem, porém dias antes de William Blake declarar-se um inveterado zoófilo, expressando sua paixão, sobretudo, por tigres brilhantes; isto é, séculos atrás, quando Lorde Byron nem mesmo Lorde era - Byron cultivava a fama de ser um péssimo jardineiro -, antes que José de Alencar pudesse sequer pensar em escrever a primeira de suas trinta mil páginas que descrevem um único pé de bétula e muito, muitos ciclos lunares antes dos elogiados versos de Rogério Flausino "não alimente amor pelo telefone/isso é ilusão", havia um poeta que daria vida ao que posteriormente ficara conhecido como "síndrome do intestino irritável", ou "piriri", num léxico elitista. Tal poeta também daria início ao que cultos chamaram de "pré-romantismo" com seus versos passionais e escrita carregada de sentimentalismo, mas afirmo que seu forte era, de fato, a dor de barriga. Seu nome era Piriac Comumnente.

A primeira informação importante sobre o Piriac Comumnente não é tão importante assim. Logo, pulemos para a segunda informação sobre o escritor romeno: Piriac não é romeno, é moldávio. Estudiosos apenas decidiram chama-lo de romeno por suas óbvias características físicas, que o distinguem de um cidadão comumente nascido na Moldávia. Isso e o fato de ninguém saber exatamente onde tal país se situa, claro. A terceira informação importante sobre Piriac é que a qualidade de sua vasta obra só foi reconhecida há pouco, sendo, até então, utilizada apenas para o embrulho de pães, frios e um ou outro robalo - robalo, pois na Romênia ninguém come salmão. O crítico islandês Patrick Vêdimais é o responsável pela publicação de sua primeira conturbada obra, intitulada "Ai, uma farpa, ai!" - primeira parte da culminante trilogia "Em tempos de escravidão, anão era troco", cujos direitos também pertencem a Vêdimais.

Recentemente, quatro minutos atrás - enquanto você ainda lia o primeiro parágrafo - pra ser exato, Vêdimais declarou ter encontrado mais um dos poemas perdidos de Piriac Comumnente quando procurava por algo para forrar seu novo abajur. Os novos alfarrábios de Comumnente, 545454 versos - note a precisão matemática do autor romeno - rimados em apenas duas estrofes, foram analisados, traduzidos e leiloados prontamente, um minuto atrás para ser exato - enquanto você se preparava para ler este parágrafo.

A mais rentável obra de Piriac Comumnente, todavia, continua sendo "Cartas de Luxúria a Adoração A. Rebites". Trata-se de uma série de cartas escritas pela mão esquerda de Piriac, em que o poeta-dramaturgo-frentista declara seu amor por uma mulher chamada "Adoração A. Rebites", nobre concubina de beleza singular, capaz de atiçar o coração de alguém que anteviu o mal-do-século. Não me refiro à banda "Mal do Século", mas, sim, ao amor. Segue uma transcrição da primeira carta, também encontrada por Vêdimais:

"Soroca, Moldávia
Bucareste, Romênia. 7 de Abril de 1600.

Cara Adoração A. Rebites.

Adoro-te.

Beijos,
Piriac Comumnente"


Brilhante, eloqüente e elucidante, não?


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