
Imagens gentilmente surrupiadas de Mission Hill
Ps: Não, ainda não escrevo sobre pigmeus.
Trilogia do Amor Falido
Parte III - Descaso.
Mais um ano que se passa. Uma data insignificante, mas que tanto simboliza. Mais um ano que se passa.
Prova do que digo é o olhar que recebi, quando contei-lhe de meus planos futuros. "Ah, legal", sua boca expulsou, enquanto seus olhos revelavam a indiferença disfarçada.
Mais do que isso. Seus olhos mostravam o esforço do interesse. Uma constante preocupação obrigatória, mas não desejada. Observação necessária, porém mal-quista. Por alguns segundos esperei que dissesse "tá sentindo esse cheiro? Esse cheiro não vem de mim, vem do ralo", mas o que veio foi o mais-que-esperado "bem, tenho de ir, estou atrasado.". Seria o mesmo dizer "por falar nisso, vamos mudar de assunto?".
Mais um ano que se passa. Uma data para admirar as muletas que uso para sustentar meu aleijamento emocional. Mais um ano que se passa.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Em Tempo
Toda semana há um texto novo aqui. Lembrem-se disso.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
Errar é humano - Flutuar é divino
Momentos depois do ocorrido, preso num vagão de metrô com centenas de outras pessoas, portanto obrigado a refletir, finalmente consegui ter uma imagem ampla de tudo. Dias antes, após uma hora de espera ansiosa, insegura e, até, insensata, a primeira coisa que cruzou minha mente, assim que vi sua discreta bolsa verde fluorescente, foi: "ela existe". A segunda foi algo relacionado à sua inegável beleza, mas a primeira, admito novamente, foi a constatação do real. Realidade que pontuou incessantemente todos os dias que passamos juntos.
Para contrapor os CDS gravados, os lugares visitados, os beijos trocados e os risos desvairados, havia o real atrapalhado. Rimas idiotas, eu sei... Mas lá estava algo que me impedia de ser o eu que construí há tempos (calculista e tudo o mais). Lá estava a gravidade, minha falta de jeito, meu querer exacerbado e o constante saber de que o tempo, relativo, passa mais rápido para os que procuram congelá-lo. Havia, assim, a realidade.
E sempre que sentia meus pés se levantando, meu corpo saindo do chão, minha mente flutuando, lá estava ela, a realidade. Botando-me nos eixos, me obrigando a dar cabeçadas (literais e metafóricas), me empurrando no sentido contrário ao desejado (rumo centro, não Ibirapuera). Sempre que me senti flutuar, errei. Mesmo com cócegas maliciosas, com piadas infames suportadas, com a certeza de que eu ainda poderia encontrar meu eu inventado e com a apreciação de manhãs preguiçosas, errei. Ou fui obrigado a errar.
Deste modo, nossa despedida, momentos antes de me ver confinado num vagão lotado, que deveria ser algo calorosa, cheia de saudade a ser sentida e de certezas a serem descobertas, foi inevitalmente preocupante e fria. O efêmero beijo foi dado de maneira ansiosa, insegura e, até, insensata, pelo mesmo garoto real que a esperara no aeroporto, dias antes. Deixando-lhe apenas seu gosto em sua boca, algumas memórias e a certeza de que a realidade, mesmo limitante, opressora e reveladora, pode ser melhor que o retorno de sua persona fabricada... Aquela que não erra, mas também não flutua.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos:
O Misterioso Matador das Mitocôndrias™
Uma peça em um só ato (ou Um post muito longo).
Em frente a um velho prédio está DETETIVE LIMA, um sujeito de meia-idade que leva um velho chapéu à cabeça, traja um terno surrado e fuma um charuto fedorento, acompanhado de seu ASSISTENTE, um nobre rapaz magro, bem vestido, de cabelo desgrenhado e sem nome, não pela falta de relevância nesta peça, mas porque seus pais simplesmente se esqueceram de registrá-lo num cartório. O assistente toma nota de tudo o que Detetive Lima fala, enquanto este anda impaciente de um lado para o outro na calçada.
[Detetive Lima]
Isso não é nada bom, nada bom.
[Assistente]
O que não é bom, senhor?
[Detetive Lima]
Como "o quê", seu celenterado lisérgico? Você não ouviu aquele grito?
[Assistente]
Sim, mas achei que fosse o pipoqueiro. Ele gritou algo parecido com isso há pouco.
[Detetive Lima]
Ele gritou "Pipoca sem Piruá!", não "Ai, minhas mitocôndrias"!
[Assistente]
Sim, mas nunca se sabe o que vai nesses saquinhos de pipoca de rua, não?
[Detetive Lima]
Tem razão. Dia desses encontrei um pedaço de unha em meu yakissoba.
[Assistente]
Veja pelo lado bom, deve ser melhor do que encontrar uma unha inteira.
[Detetive Lima]
Meu caro nematodo, desde que o Misterioso Matador das Mitocôndrias™ apareceu em nossas vidas, não há lado bom em encontrar um pedaço de unha num yakissoba.
[Assistente]
Por falar nisso; o grito que ouvimos... Não teria a ver com o mesmo?
[Detetive Lima]
E o que é que aquele grito teria a ver com o sujeito que me vendeu o yakissoba?
[Assistente]
Refiro-me ao terrível e Misterioso Matador das Mitocôndrias™.
[Detetive Lima]
Ahm... ah... sim, claro! Não interrompa minha linha de raciocínio, seu anfioxo subnutrido. O que quis dizer, antes de sua obtusa interrupção, é que o grito que ouvimos certamente tem algo que ver com o Misterioso Matador das Mitocôndrias™.
[Assistente]
Sim, sim... Perdoe-me por não ter percebido antes, Detetive Lima (clamando em alto e bom som).
[Detetive Lima]
Obrigado por dizer meu nome em alto e bom som. Algo me diz que autor desta peça já se perguntava a razão de ter me dado um nome, já que ninguém me chamava de Detetive Lima.
[Assistente]
Ora, não tem de quê.
[Detetive Lima]
Mas voltemos ao que interessa. O Misterioso Matador das Mitocôndrias™ tem de estar por aqui...
[Assistente]
Se não estiver, tenho certeza de que ao menos o pipoqueiro está. Vi-o há alguns minutos, apenas...
[Detetive Lima]
Se atenha ao caso, sim?
[Assistente]
Eu só quis dizer que o pipoqueiro passou há pouco e foi para o mesmo lado de onde ouvimos o grito sair...
[Detetive Lima]
Não me importa o pipoqueiro! Quem me preocupa é o Misterioso Matador das Mitocôndrias™...
[Assistente]
E, agora que paro para pensar, o pipoqueiro se parecia bastante com um retrato falado do sociopata que procuramos...
[Detetive Lima]
Deus do céu! Já disse para você jantar antes das apresentações... Senão fica todo obcecado pelo pipoqueiro. Toda noite é isso... "Pipoqueiro isso", "pipoqueiro aquilo". Tenha dó! Estamos procurando o Assassino das Mitocôndrias!
[Assistente]
Acho que, por lei, somos obrigados a chamá-lo de Misterioso Matador das Mitocôndrias™.
[Detetive Lima]
Olhe aqui, artrópode pentastelminto, pouco me importa o nome do Misterioso Matador das Mitocôndrias™. Só sei que há um sujeito que mata as pessoas apenas para roubar-lhes as mitocôndrias andando por aí.
[Assistente]
É, tem razão, Detetive Lima (falando em alto e bom som). O Misterioso Matador das Mitocôndrias™ é gente da pior estirpe.
[Detetive Lima]
Pior estirpe? Ele é a escória do homo-sapiens... Alguém que rouba suas mitocôndrias, sem mais nem menos, apenas para pendurá-las como nefastos troféus de sua inigualável diabolicidade, é a ralé que deveria ser eliminada pelo evolucionismo.
[Assistente]
Se bem que... Quero dizer... Andei pensando e...
[Detetive Lima]
Não ouse citar o pipoqueiro!
[Assistente]
Longe de minha intenção, Detetive Lima (em alto e bom som). Minha dúvida é outra. Sabe, uma mitocôndria nada mais é que uma organela realizadora da respiração celular...
[Detetive Lima]
Fico feliz que você tenha tempo para acessar o Wikipédia.
[Assistente]
Mas como é que alguém consegue roubar uma organela? É algo pequeno demais, entende? Ínfimo. Não faz muito sentido... Não há como roubar uma organela.
[Detetive Lima]
Entendo. Eu me fiz a mesma pergunta enquanto você tagarelava sobre pipoca. Cheguei à conclusão de que o autor desta peça simplesmente não é um sujeito muito inteligente... Deve ser um desses negos que escrevem em blog e se sentem escritores, sabe?
Neste momento entra em cena um pequeno, esquálido e cabeludo humanóide. Ele gagueja ao falar e gesticula ininterruptamente. Trata-se do AUTOR.
[Autor]
Ok, ok. Admito que não seja meu trabalho mais brilhante... Mas não precisa ofender.
[Assistente]
Falando no capeta...
[Detetive Lima]
Quem é esse? É o Misterioso Matador das Mitocôndrias?
[Assistente]
Não reconhece? É o Autor (em alto e bom som) da peça. O sujeito que me obriga a falar o nome de todos "em alto e bom som" o tempo todo.
[Autor]
Não perca seu tempo, rapaz. Apesar da piada boba inserida em suas primeiras falas, Detetive Lima não é um personagem adepto da metalinguagem neste texto.
[Detetive Lima]
Como é? Fale minha língua, seu anfioxo emplumado!
[Autor]
Viu? E nem sei por que acho engraçados esses insultos biológicos.
[Assistente]
Detetive, este é o homem que nos botou nesta situação. Não é o Misterioso Matador das Mitocôndrias™, mas é o responsável por estarmos aqui.
[Detetive Lima]
Sei... Então que história é essa de alguém roubando organelas por aí?
[Autor]
Pois é... Tive a idéia no banho. Segui em frente, mas me arrependi.
[Assistente]
Arrependeu-se? Por qual motivo?
[Autor]
Um deles são suas falas... Terríveis. Outro é o fato d'esta peça ser impossível de ser finalizada. Não tem como... Já tentei de diversas maneiras. Até transformei o pipoqueiro no Assassino das...
[Assistente]
Misterioso Matador das Mitocôndrias™.
[Autor]
Isso. De qualquer maneira, não funcionou. Não há lógica relacionando o pipoqueiro ao sujeito que vocês procuram.
[Detetive Lima]
Rá! Não falei?
[Assistente]
Já pensou em Deus Ex Machina?
[Detetive Lima]
Chamou de quê?!?
[Assistente]
Deus Ex Machina... É uma inesperada, artificial ou improvável personagem, artefato ou evento introduzido repentinamente em um trabalho de ficção ou drama para resolver uma situação ou desemaranhar uma trama.
[Detetive Lima]
Você e o wikipédia de novo, hein? Lembre-me de reduzir seu salário...
[Autor]
Não, não! Ele tem razão!
[Detetive Lima]
E como você vai introduzir isso na...
Neste momento o AUTOR sai de cena e, simultaneamente, atravessa o palco um ator (com um salário bem baixo, já que é sua única contribuição para esta peça) empurrando um carrinho de pipoca e gritando "Pipoca sem Piruá!", enquanto os dois personagens restantes, embasbacados, observam seu trajeto.
[Detetive Lima]
Cruzes! Você viu isso?
[Assistente]
Déjà vu...
[Detetive Lima]
Hey, para onde foi o Autor?
Agora um estridente pedido de socorro é dado por outro ator mal pago, dos bastidores. "Ai, minhas mitocôndrias!", é no que se traduz o grito.
[Detetive Lima]
Isso não é nada bom, nada bom.
[Assistente]
O que não é bom, senhor?
[Detetive Lima]
Como "o quê", seu celenterado lisérgico? Você não ouviu aquele grito?
[Assistente]
Sim, mas achei que fosse o pipoqueiro. Ele gritou algo parecido com isso há pouco.
[Detetive Lima]
Ele gritou "Pipoca sem Piruá!", não "Ai, minhas mitocôndrias"!
[Assistente]
Sim, mas nunca se sabe o que vai nesses saquinhos de pipoca de rua, não?
Da Esperança Perdida
Exasperada, ela adentrou o cômodo. Seu desespero, só comparável ao de Pandora, ao abrir sua caixa, era causado por uma crença, todavia, não por um fato. Sabia que havia colocado ali, só não se recordava exatamente onde a guardara. Levantou as almofadas, jogando-as de lado; nada. Ajoelhou-se para futricar o vão entre o chão e o sofá, arranhando os joelhos; nada. Abriu uma, duas, três portas do armário, chocando-as ao fazer isso; nada. Arrastou a t.v. e o suor brotou-lhe à testa, moveu a mesa e seus pulmões imploraram por ar, fuçou em velhas roupas e seu coração, mesmo agitado, se espremeu contra sua caixa torácica; nada; nada; nada.
"Não é possível", murmurou "tem de estar aqui". Pois sabia que a possuíra, sabia que a levara consigo.
De súbito, lhe ocorreu: a gaveta. Era o único ponto que não havia revirado em todo o cômodo e, mais que isso, ao olhar para ela lembrou-se vividamente de lá depositar o que procurava, "para quando as coisas ficarem difíceis.". E quase reencontrou o que buscava.
Correu para a gaveta, puxou-a com toda sua força e começou a vasculhá-la. Contas, camisinhas, canetas, um remédio para a gripe, um marcador de livros e alguns clipes de papel. Aflitas, suas mãos recomeçaram a contar os itens existentes na gaveta, desta vez jogando-os para o outro lado do apartamento, um a um. Nada. Não havia nada, senão o fundo de uma velha gaveta ante seus olhos. E assim soube que de fato a perdera.
Pois mesmo Pandora, ao liberar as mazelas do mundo, encontrara ao fundo de sua caixa, a esperança. Ela, todavia, encontrara a desilusão.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
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Um fim, um começo e várias velhas piadas
Olá, visigodos leitores. Como vão vocês? Felizes?
Há alguns dias declarei estar trabalhando (entre outros verbos) em algumas novidades. Novidades que, na época, não foram reveladas... Não porque não pudessem ser, mas simplesmente porque fiquei com preguiça de escrever algo com mais de quatro ou cinco linhas. Hoje, entretanto, é dia de revelações. O projeto em questão finalmente começou a tomar forma e a preguiça foi eliminada após um copo de café. O universo conspirou a nosso favor. O universo e o sujeito que me vendeu o copo de café, digo.
Fato é que este blog tem consumido tempo e criatividade demais para ser mantido numa base regular há seis longevos anos. Fato é que, por incrível que pareça, eu tenho uma vida pessoal... Juro que tenho (é sério)... E simplesmente não tenho sido capaz de conciliar ambos. Assim, por mais que me doa fazer isso, anuncio que o Dios Mio!! encerrará atividades nesta fatídica semana.
Mas não temam! Lembram-se do primeiro parágrafo? Se você o pulou, trate de voltar e ler. Leu? Posso continuar?
Pois bem, por saber que não serei capaz de ficar ausente no mundo virtual por muito tempo, montei um novo projeto; um projeto mais leve e de atualizações mais esparsas e simples. Sua inauguração deve se dar no final de abril, porém eu, alma caridosa que sou, preparei uma pequena prévia do que está por vir. Um rascunho geral de como se dará o projeto que há de substituir os seis anos de Dios Mio!!.
Contemplem: O Novo Projeto!
Ps: Por "contemplem" eu quero dizer "cliquem ali". Mas se você preferiu não clicar, ou simplesmente resolveu pular outro parágrafo, arranjei uma solução. Você pode clicar aqui, aqui, aqui ou aqui. Mas nada os impede de clicar aqui.
Ps2: Já você, que lê este blog há muito tempo, deve se perguntar "Mas ele não faz piadas novas?". A reposta para tal questionamento é, simplesmente, "Não". Até a próxima.
Redigido, avaliado, postado e psicografado por Jayme F.
| Resmungos: