Sobre o blog: Devo começar explicando-lhes que isto não é um blog. Não. O Dios Mio!! (com dois pontos de exclamação) é simplesmente
o caminho mais fácil até a dominação global que encontrei em anos de assumida megalomania. Minha meta é difundir meus ideais insanos até que toda a sociedade ultra-moderna
tenha digerido cada um de meus principios dadaístas. Entretanto, se isto não funcionar, admito me contentar com um prato de torradas com geléia.
Sobre o Autor: O autor deste blog (eu, prazer) é uma pessoa normal, como você ou ele. Exceto por seu terceiro olho e sua incrível capacidade de queimar arroz, claro. Matias Melo Júnior é seu nome, mas, ao que sabemos,
prefere ser chamado de Jayme, ou Magnânimo Jayme. Bem, Jayme levava uma vida pacata até atingir a puberdade e pêlos começarem a crescer em lugares inusitados (certa feita encontrou um grande tufo de pêlos crescendo atrás da estante de sua avó).
Desde então Jayme nunca foi o mesmo... começou a referir-se a si mesmo na terceira pessoa e a escrever em um blog, aspirando sair do anonimato e/ou ganhar um prato de torradas com geléia.
Sobre Lontras: A lontra (Lutra longicaudis) é um animal mamífero da subfamília Lutrinae, pertencente à ordem carnívora e à família dos mustelídeos.
Vive na Europa, Ásia, porção sul da América do Norte e ao longo de toda a América do Sul, incluindo o Brasil e a Argentina. Seu habitat é no litoral ou próximo aos rios onde busca
alimentos como peixes, crustáceos, répteis e menos freqüentemente aves e pequenos mamíferos..
A Relação entre Lontras e o Blog: Nenhuma, rá! Bem-vindos ao Dios Mio!!
(Estoy Aquí)
-Dios Mio no Orkut
-El Arlequín
-El Púdin
-Lo Que Mando...
(Concorrentes)
-Ah, É?
-BbLinda
-Blog Zé Dend´água
-Depósito Calvin
-Dilemas de Uma Rosa
-Escuta Só
-História Pra Boi...
-In Loko Again
-JBF
-Kibe Loco!
-Mi Casa, Su Casa
-N e c r o s i s
-Sabe...?
-Secos & Molhados
-Spoiler
-Syl
-Uaaai?!
-Último Momento


Imagens gentilmente surrupiadas de Jay
Blasfemado por Jayme - 29.8.07
Esdrúxulas Memórias do Fim do Mundo
O Redundante Ataque Dos Trôpegos Zumbis Assassinos
Quando o inferno veio à tona percebemos que todos os anos gastos desenvolvendo e aprimorando habilidades para matarmos uns aos outros foi tempo desperdiçado. Não se sabe como a epidemia começou, nem quando, nem onde. O que é de conhecimento geral é que matar um zumbi, mesmo sendo esta uma criatura cambaleante, lenta e desprovida de raciocínio lógico, requer muito mais esforço do que matar um cidadão iraquiano. Folhas e mais folhas de calendários eram viradas e a epidemia continuava a se propagar. Cidades foram tomadas, depois estados e, finalmente alguns países sucumbiram por inteiros aos mortos que andam.
Entretanto, mesmo nesses paises afogados em tecido morto, sobreviventes batalhavam para reconstruir uma realidade há muito perdida. Homens esbravejavam contra humanos necrosados, mulheres ateavam fogo aos corpos de zumbis derrotados e crianças atiravam pedras em monstros pútridos. No entanto, esta não é uma dessas estórias. Não. Nossa história começa com apenas dois fugitivos (diferentes de "sobreviventes") presos num guichê de metrô, enquanto um zumbi aguarda pacientemente do lado de fora, enquanto tenta engolir um pedaço de dedo, que insiste em pular para fora de seu estômago estourado.
- Puta merda, você viu aquilo? - disse Leandro tentando bloquear a porta com rifle de caça que segura em suas mãos - Eu estourei a barriga do bicho!
- É, e desperdiçou nossa última bala, sua mula! - respondeu aos berros Augusto - Se eu não tivesse jogado aquele dedão para ele, nós é que seríamos os zumbis!
- Tá, você sempre tem de ver o lado ruim... - Leandro disse enquanto puxa uma cadeira para sentar - Tente ser mais otimista, pelo menos ele não vai conseguir engolir mais ninguém depois disso.
Augusto lutou para se conformar. Quando finalmente conseguiu, percebeu inevitabilidade de suas mortes estampada em sua situação atual. Estavam ambos presos numa pequena cabine situada numa estação de metrô. A única saída era bloqueada por um zumbi sem estômago e com 5 dedões. Não havia para onde correr, não havia armas com que lutar e, se decidissem brincar de "briga de dedão", certamente perderiam.
Horas se passaram até que Augusto perguntasse:
- E agora? - uma pergunta retórica, mas isso não impediu Leandro de responder.
- Bem, talvez eu deva dar uma olhada lá fora... - respondeu Leandro (e eu avisei que ele responderia) - Eu já volto...
- NÃO! - berrou Augusto - Você está louco? NUNCA, NUNCA, diga "Eu já volto" quando existirem zumbis por perto!
- Quê? - indagou Leandro, embasbacado.
- Nunca assistiu a um filme de terror? "Eu já volto" é o sinônimo cinematográfico a "Vamos nos esconder no celeiro". É uma deixa para a morte certa... A criatura estará no celeiro! Entende?
- Quem falou em celeiro? Eu só vou ver se o carinha cinza sem barriga ainda está lá fora... Não vou ao celeiro. E nem me importo se há alguém, ou não, nesse maldito celeiro...
- Ai, sua mula - Augusto bateu na testa com tamanha força que quase caiu de costas - Estou dizendo que dizer "Eu já volto" caracteriza sua morte certa. Se você diz que já volta, é óbvio que nunca voltará... Acabará pulando para fora do estômago daquele zumbi parte por parte.
- Hmmm... Então ok - argumentou Leandro (e no caso de Leandro "Então ok" tratava-se realmente de um argumento) - Não demoro...
- Peraí!!! Dizer "não demoro" é a mesma co... - antes que Augusto pudesse terminar sua frase, algo terrível aconteceu.
- Ai, merda... - resmungou Leandro, interrompendo.
- "Ai, merda"? Era essa a coisa terrível a que o narrador se referia? Não vi nada demais... - disse Augusto me desafiando.
- Um mosquito me picou... - respondeu Leandro.
- Um mo-mosquito? - perguntou Augusto.
- É, um mosquito... Por quê? Vai dizer que vou parar no celeiro por causa disso?
- Sai de perto de mim! Não se aproxime! - Augusto começou a gritar, subitamente.
- O quê? Que foi??
- Essa doença... Os zumbis... Eles se transformam depois que o sangue infectado entra em contato com um corpo são!
- E daí?
- E daí? E se o mosquito que te picou estivesse doente?
- Um mosquito zumbi?
- É, ou coisa do tipo... E se você se transformar?
- Porra, estamos falando de zumbis, não de dengue! - disse Leandro tentando se aproximar de Augusto.
- Sai, zumbi dos infernos! - afastou-se Augusto. - Vou te dar um peteleco!
- Vá se catar! - respondeu Leandro - Até parece que um peteleco iria afastar um zumbi...
- Aaah, e como é que você sabe? Só se for um zumbi!!!
- Eu não sou um zumbi! - explicou Leandro.
- Então vou te dar um peteleco!! - ameaçou Augusto.
- Ah, quer saber? Eu já volto!!!
Leandro girou sobre os calcanhares, abriu a porta e saiu em disparada. Seu corpo sem vida foi encontrado em um celeiro abandonado, meses depois.
• Si, si, craro:

Blasfemado por Jayme - 25.8.07
Sobre Tudo Aquilo
Quando finalmente aconteceu percebi que longe, longe demais, não era longe o suficiente, e tudo de que fugi agora surgia subitamente. Todos meus pesadelos haviam chegado e parecia que todos estavam lá para ficar.
Vi-me emitindo gritos mudos, enquanto respondia a perguntas retóricas com monossilábica eloqüência.
"Como você cresceu, né?"
"Acho que você não se lembra de mim, não?"
"Força pra você, viu?"
Aguentei sozinho, até que a grande parcela dos problemas que são de fato meus, ou que me incluem, chegou. Aí os gritos foram ouvidos e as perguntas já não eram mais retóricas. As respostas, entretanto, continuavam sendo monossilábicas e agora eram repetidas a exaustão, mesmo não sendo verossímeis. Isso porque uma mentira repetida vezes o suficiente transmuta-se em verdade absoluta. Pelo menos para quem as conta.
E quando cansei-me e quis eu correr, vi que não saí do lugar. Longe, longe demais, ainda não é longe o suficiente. Meus pesadelos estão todos aqui e parece que vieram para ficar.
• Si, si, craro:

Blasfemado por Jayme - 22.8.07
Digressão
Hoje me sinto razoavelmente sociável. Sabe-se lá por que... Eu costumo ser bastante intimista e reservado, a não ser, claro, quando tomo um gole de suco da coragem (que alguns de vocês podem chamar de "cerveja"), nessas ocasiões eu sou bastante sociável e amigo de todos... Bipolaridade alcoólica, se me permitem apontar um nome. Mas o que eu queria dizer é que sinto-me razoavelmente sociável. E por isso decidi escrever isto... Um post em que não falo sobre especificamente nada, mas, mesmo assim, escrevo um bocado.
Assim, levando minha vontade de ser casual em conta, decidi escrever coloquialmente. Entendam, num colóquio eu me comunico de maneira bem diferente do que escrevo por aqui. Gesticulo um bocado, gaguejo um monte, trepido pra danar, uso um porre de "um bocado", "um monte" e "pra danar" e divago o tempo todo... Diabo, pessoalmente eu nem uso palavras como "colóquio". Portanto, aviso: se você simplesmente quer fingir que leu tudo isto, poupe-se o trabalho... Vá até a caixa de comentários e escreva sobre minha linguagem ou coisa do tipo... E se você quer ler isto tudo, você realmente não deve ter o que fazer. (perceberam como eu sou cool o suficiente para insultar meus leitores?)
Eeenfim... Tirando o fato d'eu mesmo me achar cool, sobre o que devo falar?
Não tenho a menor idéia... E isso já é um assunto.
Por quê?
Bem, o que me leva a não ter idéia do que falar é o que me leva a falar sobre não ter idéia do que falar. Confuso, eu sei... Eu também não entendi. Mas o negócio é que depois de ter escrito aquela balela toda sobre ciclos viciosos, balela tal que (olha a divagação...) me botou numa situação constrangedora onde alguém me confronta por ter escrito algo sobre alguém... E o fato d'eu realmente ter me referido a outra pessoa não contou a meu favor, levei bronca assim mesmo... Mas isso é algo que acontece o tempo todo, já que eu simplesmente gosto de tornar público um monte de fatos cretinos que eu deveria guardar para mim mesmo (tipo este post, pegaram a metalinguagem?).
Mas o que eu queria dizer era sobre o tal ciclo vicioso... Bem, após sair daquele ciclo vicioso, me enfiei em outro. Sim, claro, eu preciso de um ciclo vicioso como um sujeito com diabete precisa de um copo de uísque... Entendam, um sujeito com diabete não pode beber... Então ele não precisa de uísque... E eu também não preciso de um ciclo vicioso... Mas isso não me impede de entrar em um. E nem impede o sujeito de encher a cara...
A não ser que o sujeito não tenha lá muito dinheiro, porque uísque não é barato, vocês sabem... E...
Sobre o que eu estava falando mesmo?
• Si, si, craro:

Blasfemado por Jayme - 21.8.07
Ode a meu arrependimento posterior
De tantos erros que cometeu,
alguns piores que os de Caim
outros maiores que os de Prometeu,
nenhum se compara, nenhum se proxima
a ser taciturno ante a quem morreu.
Mas engana-se quem pensa
que morte de quem faleceu
é assim tão densa.
Pois morte de quem fugiu
é, e sempre será, muito mais intensa.
• Si, si, craro:

Blasfemado por Jayme - 14.8.07
Família, Família; Cachorro, Gato, Galinha.
Há algum tempo, cerca de uma semana atrás, visitei minha avó materna em sua casa. Sua condição de saúde é um tanto quanto grave e instável. É difícil escrever isso, mas é factual. Sua morte é certa. É certa como a de todos nos é, só que, nesse caso, nos preocupamos porque a dela é visível, é escancarada. Preocupamo-nos porque é família. E, por ser alguém da família senti-me mal por todas as vezes que discutimos. Por todas as vezes que a evitei, por todas as vezes que revirei os olhos. Senti-me tão mal que quase não fui visitá-la. Mas, por outro lado, é família...
Entendam, meu avô paterno é o cara mais pentelho e inconveniente que conheço. Isso não faz dele uma pessoa ruim, por vezes ele chega a ser engraçado, como quando um garçom de churrascaria se aproxima oferecendo "Maminha!?", e ele responde "Não, obrigado. Eu já gostei, mas hoje em dia eu tô velho.". Sua inconveniência, no entanto é mais freqüente que seu humor, o que não faz dele uma pessoa ruim, faz dele apenas uma pessoa inconveniente. Portanto há ocasiões em que visitá-lo torna-se um fardo. Ou um porre, se preferirem.
Mas o que fazer se somos todos humanos e todos, como minha avó, morreremos um dia? Como Garantir que eu não me sinta apodrecido ao evitar visitas a pessoas que simplesmente não me agradam, mas que, por coincidência genética, possuem o mesmo sangue que eu?
A resposta, meus caros, está no coração do próprio conceito da palavra "família".
Família são aquelas pessoas por quem você tem de fazer coisas que odeia.
Sim, é isso que significa ter uma família. Mesmo que vocês não sejam nada próximos - como eu e minha avó -, família é ter de fazer sala; ter conversas chatas; perguntar como está o tempo; repetir "é, a vida não é fácil" e "temos de matar um leão por dia" sempre que o assunto acabar; é evitar; é fingir que não está. Tudo isso só para sentir falta logo depois; pedir favores; receber elogios gratuitos; ganhar tapinhas nas costas; ligações durante o aniversário; ganhar bolo; comer pudim; fazer piadas inconvenientemente engraçadas.
Ter família é brigar para sempre e perdoar semana que vem.
• Si, si, craro:

Blasfemado por Jayme - 7.8.07
Yggdrasill
ou, Árvore Frutífera
O sol de sábado surgiu cedo um dia.
Surgiu sem aviso, portanto ninguém soube o que fazer.
O sol de sábado transformou-se na chuva de domingo.
Nick Drake, nascido na falecida Birmânia, agora cidadão inglês, abriu os olhos às três da tarde. Sua cama não comportava seu metro e 95 centímetros de altura, logo, seus pés costumavam ficar dependurados desde que voltara a morar com seus pais. Isso acontecera anos atrás, há quase um milênio e uma centena de vidas passadas, quando o músico Drake, o talentoso Drake, o então esperançoso Drake fracassara.
Agora Nick Abria os olhos às três da tarde, dormia com os pés dependurados e acordava com o coração apertado. Morria dez vezes por dia; uma quando tinha de passar por seus pais; duas outras quando tentava encará-los; mais três quando batia à porta de um conhecido randômico; uma quando sentia que sua taciturna visita tornara-se um fardo e outra quando escapulia de volta para casa; a última morte se dava quando Nick desabava de sono com seus pés dependurados.
Entendam, Nick gostaria de ser um músico, mas poderia ser um marinheiro ou um cozinheiro. Poderia ser um amante vivo de verdade, poderia ser um livro. Poderia ser simples como um gueto ou firme como uma rocha. Ao invés disso, Nick tornou-se vazio.
Mas não hoje. Hoje percebe que é o céu mais escuro que emite a luz mais clara. Hoje o sol surgiu mais cedo e Nick, mesmo abrindo os olhos às três da tarde, parou para se perguntar por que é que nunca se perguntou "Por quê?".
Levantou-se, ainda trajando as vestes do dia anterior - que por sua vez eram as vestes do dia anterior àquele -, e percorreu os corredores da casa de seus pais, neste momento sua. Trancou-se no quarto de hóspedes, onde se encontravam um violão e um piano - amigos, não meros conhecidos - e passou horas vivendo.
Hoje não morreria as costumeiras 10 vezes, hoje tinha apenas uma vida, e essa seria vivida em reverência ao que ele de fato conhecia. A música.
Nick Drake reabriu a porta do quarto de hóspedes às três da manhã, mais vivo do que nunca, e na ânsia de viver mais, enquanto os versos que compusera para uma canção chamada "Fruit Tree" ribombavam em sua mente, procurou por um pacote de antidepressivos guardado em seu quarto. Ingeriu u, dois, cinco, quinze comprimidos para escapar da morte. Hoje, afinal, ele vivia; hoje era um músico como não fora em anos. Assim o músico, numa tentativa desesperada de viver, morreu. E o sol de sábado transformou-se na chuva de domingo.
Fruitt Tree
Fruit tree, fruit tree
No-one knows you but the rain and the air.
Don't you worry
They'll stand and stare when you're gone...
Fruit tree, fruit tree
Open your eyes to another year.
They'll all know
That you were here when you're gone...
Nota: Explicações e a tradução de "Fruit Tree" podem ser encontradas nos comentários.
• Si, si, craro:
