Sobre o blog: Devo começar explicando-lhes que isto não é um blog. Não. O Dios Mio!! (com dois pontos de exclamação) é simplesmente
o caminho mais fácil até a dominação global que encontrei em anos de assumida megalomania. Minha meta é difundir meus ideais insanos até que toda a sociedade ultra-moderna
tenha digerido cada um de meus principios dadaístas. Entretanto, se isto não funcionar, admito me contentar com um prato de torradas com geléia.
Sobre o Autor: O autor deste blog (eu, prazer) é uma pessoa normal, como você ou ele. Exceto por seu terceiro olho e sua incrível capacidade de queimar arroz, claro. Matias Melo Júnior é seu nome, mas, ao que sabemos,
prefere ser chamado de Jayme, ou Magnânimo Jayme. Bem, Jayme levava uma vida pacata até atingir a puberdade e pêlos começarem a crescer em lugares inusitados (certa feita encontrou um grande tufo de pêlos crescendo atrás da estante de sua avó).
Desde então Jayme nunca foi o mesmo... começou a referir-se a si mesmo na terceira pessoa e a escrever em um blog, aspirando sair do anonimato e/ou ganhar um prato de torradas com geléia.
Sobre Lontras: A lontra (Lutra longicaudis) é um animal mamífero da subfamília Lutrinae, pertencente à ordem carnívora e à família dos mustelídeos.
Vive na Europa, Ásia, porção sul da América do Norte e ao longo de toda a América do Sul, incluindo o Brasil e a Argentina. Seu habitat é no litoral ou próximo aos rios onde busca
alimentos como peixes, crustáceos, répteis e menos freqüentemente aves e pequenos mamíferos..
A Relação entre Lontras e o Blog: Nenhuma, rá! Bem-vindos ao Dios Mio!!
(Estoy Aquí)
-Dios Mio no Orkut
-El Arlequín
-El Púdin
-Lo Que Mando...
(Concorrentes)
-Ah, É?
-BbLinda
-Blog Zé Dend´água
-Depósito Calvin
-Dilemas de Uma Rosa
-Escuta Só
-História Pra Boi...
-In Loko Again
-JBF
-Kibe Loco!
-Mi Casa, Su Casa
-N e c r o s i s
-Sabe...?
-Secos & Molhados
-Spoiler
-Syl
-Uaaai?!
-Último Momento


Imagens gentilmente surrupiadas de Jay
Blasfemado por Jayme - 22.7.07
Rompendo um Ciclo Vicioso
"Vicio" é a palavra que usamos para justificar o uso indevido, o abuso de algo. Ou é simplesmente um eufemismo para "cavar sua própria cova". Nosso relacionamento, por exemplo, é mais vício do que relacionamento. É, no momento, a demarcação de uma cova a ser aberta.
Somos os amantes de Magritte, trocando beijos encapuzados, barrando o afeto. Somos como o pêndulo de Newton, quando eu me afasto você se aproxima; quando me aproximo você se afasta. Nada disso, entretanto, é admitido. Pois um vício admitido deixa de ser um vício, ele passa a ser uma patologia.
Assim, decidi retirar-me da dança de casais que mal se tocam. Encerrar nosso vício e queimar nossa tela de Magritte. Pois a visão que criei de você é bela demais para tornar-se doentia. A pessoa que idealizei é demasiado perfeita para ser tão humana.
Entre real e imaginário, fico com o que não me atinge.

Blasfemado por Jayme - 17.7.07
Arizona, 1895
Três Avisos e Um Funeral
O Pistoleiro viajava puxando um asno que, por sua vez, cavalgava um jumento.
Pouco após a notória fuga de Paco, o Eloqüente, da taverna em Bullhead City, quando Madman Bill tivera de acertar inadvertidamente o ex-narrador desta história com uma bala entre os olhos, o Pistoleiro fora obrigado a adicionar em suas viagens uma horrenda prostituta chamada Miss Dolloway. Miss Dolloway, famigerada pelo apelido adquirido "Miss 69" - pelo óbvio motivo de ter nascido em 1869, não mais do que isso -, era o presente que o Diabo enviara para acompanhar Madman Bill.
Entendam, quando Paco, o Eloqüente, fugiu usando nada mais que um copo de uísque e uma lupa, toda a taverna de Bullhead City pôs-se em fogo. Claro, Bill mal se importava com o destino de rufiões que habitavam tal cidade e, portanto, já se retirava do prédio em chamas quando Miss 69 agarrou-se firmemente a uma de suas Pistolas. O Pistoleiro, não tendo tempo para cortar as mãos de sua acompanhante, viu-se na difícil posição de ter de arrastá-la consigo. Bill depositou a mulher em um jumento, atrelado ao lado de Cavalo - "Cavalo" era o nome do cavalo de Madman Bill. Admito que o Pistoleiro não era dotado da mais ampla imaginação do mundo - e continuou sua perseguição a Paco.
Pouco após tais acontecimentos, enquanto viajavam até o ponto de parada mais próximo e Miss 69 gabava-se de conhecer posições sexuais inimaginaveis, tais como o Saltador Randômico e o Pássaro Artrítico, o jumento empacou.
Bill grunhiu para que Cavalo parasse e olhou para trás, em direção à prostituta infernal.
- O que ocorreu? - perguntou ele.
- Este bicho empacou - respondeu ela - deve ter sido meu perfume...
Madman Bill desceu rapidamente de sua sela e caminhou em direção ao jumento.
- Esta é a primeira vez. - disse o Pistoleiro fitando o animal (o jumento, não Miss Dolloway) nos olhos.
Como que por mágica o quadrúpede (novamente o jumento) voltou a se mover. E tremia um pouco, como observou Miss 69, parecendo ter entendido o que Bill dissera.
O jumento, no entanto, parecia ser um pouco mais estúpido que sua acompanhante. Algumas milhas após o acontecimento voltou a empacar. Bill não viu alternativa senão descer mais uma vez de Cavalo.
- Segunda vez. - disse Madman Bill, e o jumento voltou a andar.
"Como ele faz isso?", perguntou-se Miss 69. Madman Bill era uma espécie de Crocodilo Dundee, uma centena de anos antes d'o filme ser exibido pela primeira vez na Sessão da Tarde.
Crocodilo Dundee, ou não, as ameaças de Bill não surtiram efeito. O jumento decidiu empacar pela última vez em sua vida.
- Parece que você vai ter de andar, neném - Disse Bill à prostituta enquanto descia mais uma vez de Cavalo, arrancava uma de suas Pistolas do coldre e estourava os miolos do animal.
Miss Dolloway, incrédula e coberta de sangue, protestou. O tiro inesperado deixara-a histérica.
- Oquêdiabovocêfez? Seuloucoesemeacertasse? Taqueopariuseufilhodaputaassassino! Vocêéloucodoidomaluco! - disse a mulher à beira de um ataque de nervos.
Bill, no entanto, interrompeu-a com um simples gesto de silêncio. Fitou-a com seus contundentes olhos azuis, apontou-lhe um dedo e grunhiu:
- Esta é a primeira vez...
• Si, si, craro:

Blasfemado por Jayme - 15.7.07
Monólogo Ao Pé Do Ouvido
Sabe, percebi algo curioso. Digo, curiosidade é relativa, é curioso para mim, pode não ser para você. Mas o que dizia é que percebi algo curioso. Num mundo onde a liberdade é uma palavra complexa demais para ser definida, inatingível demais para receber um sinônimo; num mundo de arranha-céus, pouco espaço, muita gente; num mundo de Eisenstein e Chaplin, onde operários são ovelhas, existe um único momento em que sou capaz de tudo. Existe um breve e retumbante momento em que grilhões passam a ser feitos de penas. Um rápido momento em que todas as palavras de todos os idiomas existem num único livro, assim você sempre sabe o que dizer. Um efêmero momento em que prédios são substituídos por praias de alvíssima areia, onde tudo faz sentido... Tudo, até os ornitorrincos. Tal momento, aprendi, ocorre no instante exato em que estamos prestes a sonhar. Sim, no instante exato em que estamos prestes. Antes de cairmos no sono é cedo demais. A sobriedade nos envolve. Depois que começamos a sonhar é tarde demais. Já fomos engolfados pelos delírios oníricos. Não, o momento exato é o prestes-a.
Acho que foi Grouxo Marx (e não Karl) quem soltou a piada "Não quero fazer parte de um clube que me aceite como sócio!". Mas isto não é uma piada, é uma verdade universal. Não buscamos aceitação imediata. Procuramos os desafios, o inalcançável. Buscamos tudo aquilo que seja capaz de dar-nos uma vã sensação de sentido, de direção, de finitude. É como "a grama do vizinho é sempre mais verde", sabe? Ou então como meu avô costumava me dizer "Sai da frente da T.V., seu puto". Entende o que quero dizer? Ele não gostava que eu ficasse na frente da T.V.
Mas, voltando a Grouxo Marx, fizemos de uma piada uma verdade universal. Ou do universo uma piada. O lance é que procuramos um sentido. Mas esquecemos de nos perguntar, há algum sentido? E, se de fato houver, você realmente quer saber que raio de sentido é esse?
Onde quero chegar? Não sei se realmente quero saber. Mas acho que a única forma de burlar isso tudo, de esquecer-se de procurar a inexistência de sentidos, é expandir o prestes-a. Levamos em média 7 minutos para cair no sono. Presumo que o sentimento pleno de super-homem que me ataca durante o prestes-a-cair-no-sono ocorra lá por volta de 2 minutos antes de dormir. E se eu pudesse expandir esses dois minutos para, quem sabe, 5 minutos?
5 minutos é o tempo que levo para beijar alguém. Se eu fosse capaz de conseguir 5 minutos de onipotência onírica, aquele beijo, o de ontem, significaria mais do que acho que significou.
E se eu conseguisse meia hora?
30 minutos é o tempo que levo para tomar banho. Com 30 minutos de possibilidades infinitas eu jamais derrubaria o sabonete.
E se conseguisse uma hora?
Uma hora é o tempo que levo para escrever algo. Com uma hora de fronteiras devastadas eu conseguiria escrever sobre o impossível e relacioná-lo à estranheza dos ornitorrincos, a meu avô pedindo educadamente para que eu saísse da frente da T.V. e a Grouxo Marx.
Vamos mais além, e se eu conseguisse expandir o prestes-a até uma vida toda?
Uma vida toda é o que levo para viver. Nem mais, nem menos. Com uma vida toda de capacidade infindável eu provavelmente seria capaz de expandir aquele breve momento em que me sinto o dono do mundo, logo antes de pegar no sono, e expandi-lo-ia para durar apenas 5 minutos. Não mais do que isso.
• Si, si, craro:

Blasfemado por Jayme - 8.7.07
Vida Em-cena
Começamos num plano fechado sobre você. Pelado, perdido, patético, você chora por confusão. Por mal conseguir enxergar. Talvez por saber que você ainda não possui cabelos, nem dentes e sua cabeça assemelha-se a um melão amassado. O analfabetismo irrevogável o impede de saber que um roteiro é um roteiro e, mesmo que soubesse, a total ausência de coordenação motora o impede de virar as páginas. O vídeo de sua vida começa com a impotência.
Continuamos com takes alternados seus. O primeiro tombo, o primeiro arroto, o primeiro macacão horrível em que sua mãe o enfiou. Tudo passa rapidamente, não há o que ver por aqui. Sua vida, no momento é um conjunto de decisões não tomadas por você.
A sucessão de imagens alternadas pára assim que você é aprende a ler. Aprendiz desleixado, sem compromisso... Você esquece falas, não sabe o significado da maioria das cenas, gagueja improvisos quando vê uma ou outra garota. Grita, chora e esperneia quando se esquece de qual era seu papel.
Mais imagens são adicionadas paulatinamente. Caixas de leite que viram prédios, videogame, sorvete, grama molhada, jogos de futebol em campos de terra, aulas de ciências, uniformes, garotas, pêlos, espinhas. Agora você sabe o que se passa, sabe o que deve fazer, só falta-lhe a conclusão de onde isso o levará. Decorou algumas falas, principalmente ao contracenar com seus pais, como "Desculpe" e "Eu queria ter dito que...", mas, mesmo assim, passa a maior parte do tempo desejando ter outro papel. Tanto faz, qualquer papel que não o seu atual seria o ideal.
Adicionamos imagens para dar-lhe a ilusão do tempo passando. Espinhas cicatrizam, diplomas aparecem, tatuagens brotam em seus braços. Não, ainda não decorou suas falas, mas sabe improvisar. Sabe dizer "Seus olhos são lindos" e "Você tem um namorado?", mas não conhece as marcações de palco. Mal sabia que elas existiam. Você estava na praia, quando deveria estar em casa, estudando; sentava-se num banco de bar, quando deveria estar no hospital, conhecendo sua sobrinha; estava na rua, pensando em se mudar, quando deveria de fato se mudar; estava na cama de Paloma quando deveria estar na cama, com Sarita.
Imagens, imagens, imagens. Repito porque são importantes. Imagens simbolizam as passagens aprendidas, as rugas adquiridas. Agora você usa gravata, dia sim, dia não, vendeu a bateria, engravidou a ex-namorada e sente seu peito explodindo toda quinta feira à noite. Seu descaso causou um emaranhado de folhas. Não sabe o que deve falar ou o que deve ser falado a você. Cansou de procurar pelas páginas desgrampeadas de seu roteiro, mas nunca achou nada mencionando uma "gravidez inesperada". Talvez por isso a chamem de "inesperada".
Outra sucessão de imagens. Nasce outro bebê, começa outro filme, um filme que você controla, no momento. Foi promovido no emprego, agora tem funcionários. Conseguiu renumerar algumas páginas de seu roteiro e começou a se reencontrar. Sua vida, no momento é um conjunto de decisões tomadas por você.
Mais imagens. Sua filha cresceu, decide por si própria agora. Seus cabelos também e estes decidiram cair. As páginas fazem sentido, você decorou as marcações. Está na peça da escola, vendo o vídeo de sua filha, quando deve estar. Está no hospital quando sua mulher tem outro filho. Está no trabalho quando deve estar.
Outras imagens. Você atravessa a rua para comprar pães. Algo passa por sua cabeça, algo como "decorei". Com tantos pensamentos, não vê o caminhão se aproximar. É atingido em cheio e a câmera se afasta, focando apenas um pacote de pães caídos à calçada.
Só se decora um roteiro assim na iminente hora do fechar de cortinas.
• Si, si, craro:

Blasfemado por Jayme - 3.7.07
Das Rugas Que Deixou De Ganhar
"Da lama ao caos, do caos à lama; um homem roubado nunca se engana."
Fato é que aprendera que pensar não é caminho a lugar algum. Agir, no entanto, a levara a inúmeros locais diferentes. Pensar poderia causar queda de cabelo, gastrite nervosa e, segundo ela o pior, rugas. Não, pensar não era caminho a lugar algum.
Morria a vida intensamente, como qualquer um deveria fazer. Freqüentando bailes, bares, casas e camas diferentes. Sua rotina era não ter rotina, e isso, só isso, agradava-a.
Esta noite ela está aqui, neste bar. Conversando, sorrindo, bebendo, girando, o mundo é sua ostra e ela o saboreia com limão. Limão e um pouco de tequila. Assim, quando você se aproxima, ela lança seu olhar luxurioso. Esta noite ela quer você. Não por ser você. Esta noite você é o rapaz da noite anterior; que, por sua vez, foi o sujeito da outra noite; que, por sua vez, foi... Bem, você entendeu. Mas pouco lhe importa, você se aproxima dela mesmo assim.
Dança sua dança, olha em seus olhos, devora seu perfume e segura suas mãos, mas ela o afasta quando tenta abraça-la. "Assim não", ela diz. O jogo é dela, suas regras são inerentes. Minuto após minuto, copo após copo, gole após gole, o jogo continua. Continua até que ela o beija. Sim, sei que surge o espanto e, logo após, o sentimento machista da conquista. Da caça abatida. Mas, repito, o jogo é dela. E só dela.
Suas mãos pressionam seus jeans e você segura seus cabelos enquanto suas bocas se entrelaçam. O gosto de limão e tequila passa por sua língua com acidez notável. Gosto da vida. Vida que volta a surgir apenas quando você interrompe o ato e pergunta "Qual seu nome?". Ela balança a cabeça e se afasta. Fim do jogo. Ela parte para mais uma dose de tequila e você permanece estático, incapaz de confrontá-la.
Fato é que aprendera que recordar é reviver, e existem coisas que ficam melhores quando guardadas em baús empoeirados. Fato é que aprendera que pensar não é caminho a lugar algum. Pensamentos se transformam em rugas. Fato é que ainda não percebeu que ruga é sinal de vivência. Ruga é sinal de vitória.
• Si, si, craro:
