Jayme: Rapaz de 21 anos, demorou 19 para descobrir o que queria da vida e demorará mais
19 para atingir suas metas. Admirador de filmes estrelando Ursinho Pooh e sua trupe, Jayme gosta de longos passeios na praia
e sentar junto à lareira nas noites frias de domingo. Isto é, se em sua cidade houvesse uma praia, se ele não sofresse com o calor
de 40ºC durante o verão, e se ele acreditasse em domingos. Mas nem tudo são flores em sua vida, nosso querido rapaz afirma que desgosta de
flores, coraçõezinhos, da geração powerpuff e de um bocado de outras coisas. E enquanto está ocupado desgostando de um bocado de coisas por aí, Jayme
escreve num blog, ou o que ele pensa ser um blog. Apresento-os, o Dios Mio!!: (aviso: personagens aqui citados que possuam qualquer
semelhança com pessoas reais são frutos de horrendas coincidências.)

Novo de Novo
Respirar, responder, remoer, reinfatizar.
Refrisar, recolher, recompor, regurgitar.
Repensar, reconhecer, redigir, reorganizar.
Recomeçar, renascer, reerguer, reintegrar.
Perdoar.
ser capaz de.
dito e feito por Jayme
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O Espartano Voador
2- "No Qual Somos (Quase Todos) Apresentados"
Não me lembro de ter ido dormir na noite passada. Vai ver é por isso que acordo no chão, não na cama. Também não me lembro a que horas fui dormir, acho que preciso de um relógio. Mas para falar a verdade eu não me lembro nem de ter ido dormir... Será que eu dormi? Tudo tem sido tão distante e impressionantemente vago que pareço sempre estar sonhando. Sabe quando você simplesmente sabe que está sonhando? Pois é assim que eu passo meus dias. Tenho certeza absoluta de que eu estou sonhando... Até quando vou ao banheiro... Essas idas ao banheiro sempre me lembram de que estou acordado, afinal, quem diabo sonharia estar sentado no vaso?
Mas até agora não fui ao banheiro. Não sei realmente se estou sonhando ou se estou acordado. Sei é que tem um maldito mosquito zumbindo em meu ouvido. Perceberam que mosquitos sempre voam próximos ao seu ouvido? São uns bichos bastante sádicos se você parar pra pensar. Voam por aí chupando sangue das pessoas, zumbindo em seus ouvidos... Zumbindo... Zumbindo... Zumbindo... Puta merda, não é mosquito, é o telefone...
- Alô, Patrício? - diz a voz misteriosa quando aproximo o telefone à minha orelha.
- Diga, voz misteriosa. - respondo eu. É, eu digo algumas coisas bem cretinas às vezes...
- Porra, Patrício, é o Oswaldo. - Oswaldo é meu chefe.
É ele quem decide o que é publicado e o que não é. É um puta sacana, pra falar a verdade... mas tudo bem. Num mundo justo eu o chamaria apenas de "editor", ganharia um gordo cheque no final de cada mês, mosquitos não zumbiriam em meus ouvidos e meu telefone teria uma campainha menos parecida com o zumbido de um mosquito. Mas tenho más notícias para você, meu bem. O mundo não é justo.
- Diga, Oswaldo. Gostou do que escrevi?
- É exatamente por isso que estou te ligando...
- Para me congratular? Poxa, obrigado...
- Obrigado o caramba! Eu devia arrancar seus bagos e transformá-los em guirlandas só por você ter tido essa idéia de merda! O que diabo você tava pensando?? Espartano voador? E que merda é aquela entre o pombo e a mãe do cara?
- Naquele tempo aquilo era normal - e era mesmo, ora! - As pessoas viviam se apaixonando por cisnes e coisas do tipo... Sem contar que eu precisava de uma desculpa para dar os poderes ao rapaz, não?
- Porra, Patrício! Zoofilia não vende! Até o Iago ficou puto!
- Então manda o Iago se foder - Iago é o desenhista pulha com quem tenho de trabalhar... não, não gosto dele. E não, não quero falar nele neste exato momento - Porra, eu sei que é absurdo, mas o que é que o editor do Stan Lee disse quando ele apareceu com uma historinha sobre nerds e aranhas radioativas? O que é que disseram quando Neil Gaiman apareceu querendo reviver um herói dos anos 50 chamado Sandman? O que diabos disseram quando Alan Moore tentou escrever Watchmen, hã? - agora eu peguei o safado de jeito. - Você se esqueceu de que fui eu que escrevi o "Zênite Negro"?
- Olha, cara... - disse o Oswaldo usando um tom afável. O que não desfaz dele o sacana que ele é - Eu sei que você escreveu aquele lance todo sobre seu pai e tudo o mais. Foi exatamente por isso que o contratamos, para falar a verdade. Mas você não é Stan Lee, nem Alan Moore. Todo mundo dizia que você estava acabado, que vivia tendo ataques, que tantos elogios e prêmios ferraram com sua cabeça... Mas lhe demos uma chance. Eu convenci os caras a darem a você mais uma chance. - agora o safado me pegou de jeito - Agora você quer botar tudo a perder só para escrever esse troço sobre pombos e gregos que voam? Puta merda, Patrício!
Achei melhor mudar de tática e dar-lhe o mundialmente famoso "gelo". Fiquei mudo.
- Não vai dizer nada, né? - ele acabou dizendo após alguns minutos de silêncio de ambas as partes. - Tá certo... este mês passa, sei que você tem passado por um bocado. O Iago me contou... - maldito Iago - Só me entrega algo melhor no mês que vem, ok? Algo com mais conteúdo... mais envolvente...
Ele desligou. Sinal de que meu gelo funcionou.
"Algo com mais conteúdo"... Ora, eu tenho um bocado de conteúdo. Eu tenho conteúdo pra dar e vender. Eu estou transbordando de conteúdo. Eu poderia ganhar a vida vendendo conteúdo. Posso não ter higiene, inteligência e um bocado de outras coisas, mas estou cheio de conteúdo... puto... Tenha certeza de que vou mostrar conteúdo a ele.
Eu só preciso encontrar algo melhor do que o que escrevi. Preciso achar algo que tenha continuidade. Algo com que as pessoas possam se identificar. Nada daquela baboseira de Crocodilos Visigodos Canibais, não. Algo com conteúdo.
Hmm... que tal algo sobre mosquitos? Mosquitos e seus zumbidos e... nhé... de que adianta? Eu estou acabado. Sou inútil nas condições em que vivo. Preciso dar um jeito em minha vida se quiser escrever algo verdadeiramente bom. Como o "Zênite Negro"... Eu preciso me reerguer, merda. Preciso voltar a me concentrar, me alimentar direito... quem sabe comprar um relógio? E talvez um mata-moscas...
Viu só? É claro que consigo ter idéias com conteúdo. Preciso me lembrar de dizer isso ao Oswaldo. Sim, preciso dizer várias coisas àquele sacana. Uma delas é que heróis baseados em antigas mitologias gregas não são assim tão ruins e que, tudo bem, ele pode ser coxo e filho de um pombo... mas até os malditos pombos têm o seu valor, não? E também não era qualquer pombo... era Zeus!
É isso, preciso escrever algo com conteúdo:
O Espartano Voador
1 - "O Começo", ou simplesmente, "Merda"
"... na verdade o maior predador dos bebês crocodilos são os próprios crocodilos..."
Crocodilos... nome engraçado... quem foi que disse que se chamariam "crocodilos"? Por que não chama-los de "visigodos"? E por que não chamar os visigodos de "crocodilos"?
"... é chamado de canibalismo em larga escala..."
Crocodilos visigodos canibais... isso daria uma boa história... aposto que o Oswaldo não ia gostar... mas do que diabo ele gosta?
"... por isso é correto afirmar que... "
Oswaldo... Oswaldo... Que dia é hoje?
"... o temporário desaparecimento de crocodilos adultos..."
Ai, merda! É para amanhã! Ai, merda, merda, merda! Eu esqueci! Merda!
"... favoreceu o florescimento..."
Merda! O que diabo eu vou escrever agora??
"... de grande parte dos crocodilos infantes...''
Crocodilos visigodos?? Porra, o Oswaldo vai arrancar meus bagos e transforma-los em guirlandas se eu entregar uma porcaria dessas a ele...
"... os crocodilos..."
Ai, merda! Merda! Por que sempre faço isso? Merda! Merda!
"... são uma raça próspera..."
Transformo tudo numa merda de tragédia grega... Merda!! Merda de tragédia grega!!
"... e engana-se quem pensa que desaparecerão em breve..."
Grega... gregos... gregos... gregos!!! Merda, os gregos!!!
Ok, me enganei.
dá sim pra adiar mais um dia, fica para amanhã.
dito e feito por Jayme
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Surreal 2
Acordo às 6h
temperatura corporal: 38ºC.
Durmo às 7h.
Acordo às 10h,
levo 30 minutos para ser capaz de me convencer a lenvantar
encontro 25 centavos dentro de meu tênis
meu tênis número 38, graças a meus diminutos pés.
Vou almoçar às 13h
no 1º Habbibs a abrir nesta cidade,
a garota numero 3 fica lançando olhares para minha mesa,
e as outras 2 são feias.
às 13:30 termino meu almoço,
aproveito e uso os 25 centavos para pagar a conta,
conta que ficou em 5 reais e 25 centavos.
25 centavos, por incrível que pareça...
passo as outras 10h e 30 minutos do dia pensando...
Pensando na garota número 3
e em porque não pensava nas outras 2.
Pensando nos 25 centavos
Pensando nos 38ºC
Pensando no tamanho 38 de meus pés. Quem definiu que esse seria o tamanho 38?
por que não 48?
Mas a verdade é que penso em 1.
Penso na vez em que me senti senhor de mim mesmo.
Penso na merda de que não consigo me livrar.
Penso na cerveja a mais que tomei...
Penso no erro a mais que cometi
Penso no desvio que tomei, porque aquele, teoricamente, seria o único...
e depois daquilo eu ia me endireitar...
Penso no 1... no único... no primeiro... no um...
e me pergunto: Pra que tantos números, se eu realmente só penso nesse?
dito e feito por Jayme
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Não dá mais para adiar.
Terça-feira eu começo...
Adendo: Lembrem-se de que eu ainda tenho outro blog. Chama-se Mandamos Você. E você pode visitá-lo clicando aqui, aqui, aqui ou aqui. Mas tudo bem, se você prefirir clicar aqui, não há problema algum.
(ou então clique aqui)
dito e feito por Jayme
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Cognição
- Aposto que consigo te beijar sem tocar teus lábios.
- Hahahaha... sem encostar? E como você vai fazer isso?
- É parte da aposta.
- Ok, o que você quer apostar?
- Eu pago uma rodada se não conseguir.
- Combinado! Pode tentar!
- Certo, preparada?
- Uhum...
- Lá vai...
- ...
- É, acho que perdi...
- Perdeu mesmo...
- Posso perder de novo?
dito e feito por Jayme
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A Gloriosa Revolução dos Unos
A noite passada foi feita de épico. Iniciada por uma sessão nostálgica e, após uma rápida parada para comprar halls sabor canela (canela? eca...), dissemos:
- Então, vamos lá?
- Vamos...
- ...
- ...
- Onde é que fica?
- Sei lá, oras... é você quem está dirigindo.
- Mas a festa é tua, diabo!!
- Putz, vai dizer que você também não sabe??
Não sabia. Procuramos por ajuda e logo encontramos alma caridosa o suficiente para nos explicar... em partes...
"Ah, ok, então tem um certo movimento lá na frente, não? Vamos conseguir saber quando estivermos perto?". E aí encontramos...
Encontramos filas de quilômetros sob olhares aflitos de "ai, caralho....".
Encontramos o tiozão dançarino, seu carro absurdamente bem equipado e seu péssimo gosto musical.
Encontramos mais filas.
Encontramos dançarinos bombados com tendências homossexuais.
Encontramos mais filas.
Encontramos desejos de esfaquear pessoas.
Encontramos mais filas.
Encontramos o casal de lésbicas mais charmoso do mundo.
Encontramos mais filas.
Encontramos a revolução dos unos e seu principal defensor.
Encontramos o fim das filas.
E aí encontramos a cerveja.
A cerveja e a fila para comprar cerveja.
Encontramos gente aqui e ali.
Encontramos risos e sorrisos.
Encontramos o mendigo que não era mendigo.
Encontramos de tudo um pouco.
Só faltou encontrarmos a namorada que não sabia que era namorada.
Encontramos alguém de quem conversávamos,
e nos desencontramos por alguém sobre que conversamos depois.
E, quando tudo parecia ter terminado,
e o sol já se encontrava a nascer,
nos reencontramos.
E demos a noite por encerrada.
Sob gritos da revolução dos unos e dos risos encontrados embriagados.
A noite foi feita de épico.
dito e feito por Jayme
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Entre o Necessário e Tudo o Mais
A coisa mais bonita que já ouvi foi "eu preciso de você". Não vinda da necessidade burra, frívola, em que se pede por socorro sem ao menos saber o que ameaça. E sem que saibam qual é minha capacidade (grandiosa ou ínfima). Não.
Refiro-me à verdadeira necessidade. Aquela em que se sabe que só uma pessoa pode ser o alvo do necessário. Aquela em que você sabe que só ele/ela pode te confortar e solucionar o que está errado. O insolúvel a outro alguém. Necessidade de verdade.
E quando precisaram de mim, a coisa mais bonita que fiz foi socorrer. Socorrer com um sorriso repartindo os lábios, pois não é sempre que isso acontece. Necessidade real é rara e, portanto, deve ser aproveitada. Nem sempre precisam de você para mais do que trocar uma lâmpada. E muitas vezes nem para isso precisam, mas pedem sua ajuda mesmo assim. "Ajuda". E comigo não é diferente.
Por isso sei que foi a coisa mais bonita que já ouvi. Com certeza mais bonita e mais sincera do que todos os "eu te amo" que já recebi. Quem ama pode trair, quem precisa é fiel. Pois quando necessário você é indispensável, e quando amado você pode ser reposto. E ser reposto quer dizer que você vai trocar muitas lâmpadas por aí...
Agora torço para que ouça novamente. Torço para ser necessário, indispensável. Porque sabe-se que nenhuma lâmpada tem queimado por aqui...
dito e feito por Jayme
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Esdrúxulas Memórias do Fim do Mundo
Meses se passaram e ele não demorou a acostumar-se com sua nova condição. Aliás, após o choque inicial voltara a viver sua vida quase exatamente como vivera antes, retomara sua antiga rotina quase que por completa. Claro, existiam algumas diferenças, tal como o solilóquio que mantinha com irritante freqüência, mas quando se é um dos únicos sobreviventes de uma guerra química isso não chega a ser um empecilho. Pelo contrário, por não haver tantas pessoas por aí solilóquios eram bem-vindos. E além disso não havia ninguém para reclamar.
E agora, por não gostar muito de mudanças, tentava manter sua rotina imutável. Continuava indo ao escritório todos os dias, pela manhã, e fazia compras num supermercado que permanecera aberto após o início da guerra. Não saqueava, mas fazia seus próprios preços baseando-se sempre na lei da oferta e demanda. E como ele era o único que demandava qualquer coisa, o mercado vivia em constante queima de estoque.
Num dado dia, enquanto saia para alugar um filme (por uma diária absurdamente barata, já que novos filmes dificilmente seriam produzidos), passou por um beco e ouviu algo estranho:
- Olá?! - disse ele receando encontrar um daqueles vagos mutantes que rondavam os becos durante o dia.
- V... você... você está vivo!? - respondeu uma mulher levantando-se de uma pilha imunda de absorventes usados que, pelo visto, vinha usando como travesseiro há um bom tempo.
- Não, morri faz tempo... - disse ele - Vim até esse beco imundo só pra te assombrar.
- Argh! - gritou ela.
- Era brincadeira...
- Meu deus, meu deus... o horror... - era óbvio que sua sanidade era segura por apenas um fio de frágil consciência - Você não sabe como sofri esse tempo todo sozinha...
- Pois é, Helena. - respondeu ele.
- Você... me conhece?
- Sim, sim... Você trabalhava no mesmo escritório que eu...
- Meu Deus! É verdade!
- Um ano atrás eu cheguei a te convidar para tomar um café comigo...
- Bem... não me lembro direito disso... - disse ela, claramente confusa.
- Pois eu lembro. Você disse que só sairia comigo se eu fosse o último homem na face da terra.
- Poxa... me desculpe...
- Tudo bem. - desculpou ele.
- ...
- ...
Um bruto silêncio abateu-se sobre os velhos companheiros de trabalho, entreolhavam-se com estranheza, ela com certo ar de sandice e ele com absurda tranqüilidade.
- Bem... e aí? - por fim ele quebrou o silêncio.
- E aí o que?
- Vai tomar um café comigo?
- C... c... como... como é?
- Bem, eu não vejo mais ninguém à nossa volta. Não vejo mais ninguém há meses, para falar a verdade... Acho que sou o único homem da face da terra.
- Você quer dizer que... ahm... Eu e você?
- Não que eu já queira perpetuar a espécie... ainda não... sei que é meio cedo pra isso. Mas um pouco de café não faz mal a ninguém. - explicou-se ele.
- Olha... eu não como nada há dias, tenho dormido num monte de absorventes e acho que contraí alguma infecção contagiosa no ouvido direito.
- Ah, claro... sei... vamos começar com o "não é você, sou eu".
- Mas...
- Quer saber? - disse ele irritado - Poupe seu fôlego. Passar bem!
E enquanto se afastava, deixando Helena boquiaberta em sua pilha de absorventes usados, resmungou:
- Adão e Eva uma ova...
dito e feito por Jayme
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