Jayme: Rapaz de 21 anos, demorou 19 para descobrir o que queria da vida e demorará mais 19 para atingir suas metas. Admirador de filmes estrelando Ursinho Pooh e sua trupe, Jayme gosta de longos passeios na praia e sentar junto à lareira nas noites frias de domingo. Isto é, se em sua cidade houvesse uma praia, se ele não sofresse com o calor de 40ºC durante o verão, e se ele acreditasse em domingos. Mas nem tudo são flores em sua vida, nosso querido rapaz afirma que desgosta de flores, coraçõezinhos, da geração powerpuff e de um bocado de outras coisas. E enquanto está ocupado desgostando de um bocado de coisas por aí, Jayme escreve num blog, ou o que ele pensa ser um blog. Apresento-os, o Dios Mio!!: (aviso: personagens aqui citados que possuam qualquer semelhança com pessoas reais são frutos de horrendas coincidências.)


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24/01/2004

|Domingo, Abril 30, 2006|



Atenção

Tempos atrás as pessoas sonhavam com um blog que mandasse-as fazer algo. Ansiavam por alguém que mostrasse o caminho da luz e dissesse o que deveriam (e o que não deveriam) assistir, escutar, ler ou bisbilhotar.

Tais tempos acabaram, meus caros. Porque chegou o novo, o genial, o brilhante, o inoxidável Mandamos Você.... O blog que não vai mudar suas vidas, e certamente não fará diferença alguma.

Apreciem sem moderação alguma.

Ps: Grato pela atenção.


dito e feito por Jayme
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|Quarta-feira, Abril 26, 2006|



Entre Capítulos

é, se fosse fácil assim pra mim
não sei porque se é assim
mas é... mas é...

é, me faz sofrer sem nem saber
então me toma em si sem perceber
que tudo que você precisa sou eu

eu só queria que você me coisasse
e que depois você me lalaiá laiá
não tão depois a gente se interligasse
aiai aiai...


dito e feito por Jayme
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|Domingo, Abril 23, 2006|



Capítulo 1
Final

Antônio e Paula viveram crises de ciúme. E passaram por elas. Depois disso viveram um romance. Apenas para voltarem a viver crises de ciúme. E passarem por elas novamente.

Passaram mais seis meses juntos. Conheceram-se, mudaram, transmutaram e transformaram. Paula quebrou o Santo Graal de Jonas e Antônio flagrou André em ocasiões embaraçosas.

Perceberam que eram dois despedaçados, e quando todos os pedaços dos dois, sem faltar nenhum, se ajeitaram num mesmo espaço, e as duas bocas, enquanto separadas, murmuraram bobagens importantíssimas, e os dois pensamentos conheceram juntos lugares que não existem. Paula voltou a perguntar se Antônio temia a morte, e ele voltou a dizer que não. Ela voltou a perguntar o que ele vestia, e ele sempre respondia "jeans e camiseta". E ele apaixonava-se todos os dias, pela manhã, quando acordava e ela estava ao seu lado... babando, é claro. Já conheciam cada ruga, cada pinta, cada dobra e cada fio encravado.

Porém, no ponto culminante de tal paixão, Paula planejou uma mudança. Resolveu estudar em outra cidade, bem longe daquela em que a paixão vivia. E quando contou a Antônio sua decisão, ele sugeriu que continuassem a visitar lugares inexistentes, mesmo à distância.

- É, se fosse fácil assim... - disse ela - pra mim...

- Não sei por que se é - respondeu ele - assim.

- Mas é... Mas é...

Sabiam que o conquistado se dissolveria. Sabiam que duas realidades numa só não resistiria a milhares de quilômetros. Por isso a separaram. Como se corta uma folha de papel ao meio. E até hoje Antônio jura ter sido esse o som que ouviu quando Paula entrou no carro. Papel sendo rasgado.

E o que era um amontoado de pedaços juntos, voltou a se desmontar. Antônio voltou a formar suas teorias nefastas sobre a humanidade e a se afastar de tudo o que era vivo e vivia. Sabia que havia muita diferença entre ser vivo e viver. E fazia questão de traçar uma linha entre ambos os atos. Mas quando perguntavam por que ele vivia assim (ou apenas era vivo assim), ele não respondia. Mas dizia a si mesmo: "distância."


dito e feito por Jayme
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|Quarta-feira, Abril 19, 2006|



Capítulo 1
XIV

O silêncio inundava toda sala onde Antônio e seu psicanalista que não chegou a ser batizado se entreolhavam. Antônio, vestido com suas costumeiras calças jeans e uma camiseta surrada, apenas permanecia ali, com o olhar vago, de quem estava, de fato, há quilômetros de distância. O psicanalista, no entanto, se perguntava se, apesar de já ter participando de um considerável número de histórias, algum dia teria algum nome, mas fingia estar prendendo sua atenção a Antônio, que pagava uma boa quantia por horas de 50 minutos. "Quem é que cobra por horas de 50 minutos, afinal?" pensava o psicanalista.

- Bem, após suas insinuações eu fui me encontrar com Paula, para confirmar essa história toda. - Antônio começou a falar com 14 minutos passados de sua hora de 50 minutos.

- Mas eu não... - disse o psicanalista voltando a si.

- Enfim... - continuou Antônio - Jonas e Peu acharam que seria uma boa idéia procurá-la, já que não consegui ligar para ela. Então seguimos até seu apartamento, onde sua amiga ou alguém com uma voz extremamente minguada nos disse que ela estava num lugar chamado Café Caribe. Sabe onde fica?

- Sei... nas Ilhas Cayman - respondeu o analista. - Eu tenho um Atlas, por isso sei.

- Não é exatamente esse Caribe - respondeu Antônio após mais alguns minutos de silêncio. Toda sua paciência parecia ter ido embora após algumas horas passadas ao lado de Jonas.

"Chegamos no Café Caribe, Peu e eu, com Jonas alguns metros atrás, gritando algo como 'yo-ho-ho e uma garrafa de rum', ou coisa do tipo. O porteiro certamente nos barraria, mas viu a tempo o quão cool eu sou e nos deixou passar, sem problema algum. Claro que tivemos de pagar algo extra por isso, mas eu estou bem certo de que foi toda minha ginga e picardia que garantiram nosso acesso ao lugar.

"O lugar estava lotado, claro. Um sinal de que Paula estava lá, pois ela tem a estranha mania de gostar de lugares onde as pessoas sempre estão a menos de 20 centímetros de você. Parecia um formigueiro... por isso Peu começou a ficar agitado. Engraçado é que ele é capaz de debater teorias de Hegel e Birman, de discorrer sobre a vida pessoal de Freud e relatar seu estranho gosto por pães-de-queijo sem recheio algum e falar horas sobre Seu Domingos e sua famosa dialética. Mas tem uma crise de pânico toda vez que vê algo relacionado a formigas e cupins.

"Mas, por ter me deixado preocupado, e por sentir que eu mesmo estava prestes a desmaiar, deixei Peu aos cuidados de Jonas. Uma decisão que agora não me parece muito sábia... Mas não fui capaz de pensar direito. Principalmente após ter visto Paula sentada em uma das mesas."

- "à uma das mesas", você quer dizer - interrompeu o psicanalista.

- Não, "em uma das mesas" - respondeu Antônio - Ela se sentava bem em cima da mesa, mesmo. E como tenho pavor de pessoas que sentam-se em mesas (o que é absolutamente compreensível, nem pense em anotar nada em seu caderninho), me senti pior do que já me sentia.

- Certo... - disse o analista soltando sua caneta em seu colo.

"Ela estava sozinha. Mas ao seu lado, em cima da mesa, havia um tubo de pasta de dente. Algo estranho de se levar a um lugar como aquele, pensei. Mas, à medida que me aproximei, percebi que não era pasta de dente, e sim um tubo de lubrificante.

"Jonas gritou 'Eu já sabia!' e, neste mesmo instante, meu coração parou. Cheguei a ver uma mulher um tanto masculina sentando-se à mesa (e, por sorte, não em cima dela) de Paula, mas desmaiei, logo depois."

"Quando recobrei os sentidos eu estava no apartamento de Paula, deitado em seu colo. Peu encontrava-se ao meu lado e Jonas, que trouxera o Santo Graal, bebericava alguma substância cujo nome minha mente preferiu bloquear. André também estava lá, e limpava alguma coisa de seu rosto com um pano rosa."

- André? - interrompeu o analista - Então ele e Paula...?

- Não.

- Não?

- Não.

- O que, então?

- Acontece que André era, de fato, meio andrógino - explicou-lhe Antônio - Na verdade ele era inteiramente andrógino. André e Cíntia eram a mesma pessoa...

- Claro! - disse o analista animando-se - Faz perfeito sentido. Afinal, você nunca viu os dois no mesmo lugar!

- Ceeeerto... - continuou Antônio - Explicaram-me que o tal tubo era para André... não me pergunte por quê... e que Paula, na verdade, não parava de falar de mim desde a noite que passamos juntos.

- Interessante - concluiu o psicanalista em uma de suas últimas participações por aqui.

- É...

- E agora, você acha que havia motivo para sentir ciúme dela? - perguntou ele em sua penúltima participação por aqui.

- Ciúme? Por quê? - perguntou Antônio assustado - Você ainda acha que eu devia sentir ciúme??

- Bem... - tentou dizer o psicanalista em sua última participação por aqui.

- O que diabo você está insinuando???


dito e feito por Jayme
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|Domingo, Abril 16, 2006|



Capítulo 1
XIII

- Eu ainda acho que André é meio andrógino. - dizia Jonas durante quase todo o tempo em que estavam dentro do ônibus. Quando não era isso, eram apenas pedidos para que parassem, pois queria "pedir informações" num dos bares que vira um ou dois quarteirões atrás.

Antônio, no entanto, se recusava a parar. Imagens de Paula e André inundavam sua cabeça e cenas brotavam em sua mente com absurda freqüência. Peu chegou a tentar confortá-lo, mas desistiu quando Antônio, mal humorado, fez alguma piada religiosa que certamente não o agradara, assim, passou o resto do caminho discursando sobre como a religião certamente era o ópio do povo e como o estado laico só existiria e funcionaria na teoria, tendo em vista que todos aproveitavam feriados religiosos para coçar e encher a cara. Principalmente Jonas.

- E é por isso que sei que o tal "livre arbítrio" não funciona - concluía Peu, pouco antes de ser interrompido por Antônio.

- Chegamos, é aqui!

Os três desembarcaram do ônibus numa avenida e após andarem alguns metros, viraram numa rua sem saída, que dava exatamente para o prédio de Paula. Antônio interfonou no número 82 e perguntou por Paula à voz minguada que atendeu. Paula não estava.

Claro que não estava, eu bem disse na última parte desta estória que ela havia saído com Cíntia, não? Mas Antônio, em toda sua angústia e ciúme, não me ouviu. Ou leu, já que eu, como narrador, posso apenas escrever. Enfim, eles haviam decidido confrontar Paula e, possivelmente, André, e esqueceram-se de que havia a chance de nenhum dos dois estar por lá.

- Você pode me dizer onde ela foi? - pediu Antônio lembrando-se de que o narrador é alguém deveras importante nesta estória.

- Antes que eu mate esse maldito narrador - er.. bem...

- Ela saiu com Cíntia, eu te disse no telefone - disse a voz minguada.

- É, mas eu...

- E eles levaram algum tipo de lubrificante? - Jonas interrompeu e piscou para Antônio.

- Ahm... não. Acho que não. - respondeu a voz.

- Droga.

- Desculpa por isso - disse Antônio retomando o controle sobre o interfone - Eu só queria saber onde ela foi, eu realmente preciso falar com ela agora, sabe?

- E quem é você?

- Antônio. Namorado da Paula.

- Mas ela não tem namorado... - disse a voz, praticamente sepultando Antônio. Começou a suar, suas pernas ficaram bambas e seu rosto pálido. Sua língua mais parecia um daqueles brinquedos de parque de diversão do interior, onde a palavra "segurança" só serve para designar um homenzarrão careca de quatro metros de altura que mal sabe falar. Porém, quando Jonas já se preparava para fazer outra pergunta sobre sexo anal, ou travestis, ou os dois, Antônio retomou o controle de seu corpo.

- Só me diga onde ela está, por favor. - disse ele.

- Elas foram para o café caribe. É só seguir essa rua que você encontra.

- Mas a rua é sem saída! - exclamou Jonas - Estamos perdidos!

- É só deste lado... se você olhar pro outro lado vê que ela termina numa avenida... - respondeu a voz.

- Ah, sim, claro. - Jonas tentou se recompor. - Por um minuto achei que era o fim de tudo.

Antônio, sem pensar duas vezes, disparou pela rua, com Peu em seu bolso, a procurar por sua amada e exigir explicações. Jonas, vendo que seu amigo já estava algumas dezenas de metros à sua frente, preferiu ficar por ali.

- Escuta - voltou a interfonar ele - Você tem algo para beber aí?

- Água serve? - perguntou a voz.

- Você quer me matar? - perguntou Jonas indignado. - Deus, eu preciso de um trago...

Jonas correu para alcançar Antônio em sua busca. "Por pior que um lugar chamado 'Café Caribe' possa ser, eles ainda devem ter umas brejas", pensou ele enquanto corria.



dito e feito por Jayme
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|Quarta-feira, Abril 12, 2006|



Capítulo 1
XII

- Talvez ele não quisesse dizer exatamente isso. - Peu tentava argumentar com Antônio há horas, sem muito sucesso. Antônio chegara de sua sessão com o psicanalista completamente afoito, e desde então não parara de falar sobre Paula e seu amigo, André.

- Como não? Foi bem claro!! - respondia Antônio. - Aposto que agora ela esta lá com aquele cara, no quarto. Maldição, porque eu não instalei câmeras e microfones em sua casa?

- Ahm, por que você não é maluco?

- Tá, é bem óbvio que você não me conhece!

Neste momento Jonas adentrou o apartamento, vindo de um ensaio de sua banda de white-gotic-death-spankthru-waka-waka-metal, chamada Sargento Pincel e a Banda do Clube dos Fígados Solitários. Um misto de homenagens às suas três maiores paixões: os trapalhões, beatles e bebida. Jonas foi até a geladeira, viu que nada havia para beber (nada com álcool, pelo menos) e voltou-se para Antônio:

- Salve, salve, meu neguinho. Que que há?

- Mal comecei a namorar - disse Antônio - e já estou sendo corneado. É isso o que há!

- Como é? - perguntou Jonas se jogando no sofá.

- Isso mesmo, neste momento eles devem estar transando.

- Hmmm - considerou Jonas - que bosta.

- Não, ele não tem certeza disso - intrometeu-se Peu - Aliás, Antônio, você já tentou ligar pra ela para conversar?

- Tentei, a colega de quarto dela disse que ela saiu com uma amiga, Cíntia. Cíntia uma ova...

- Foi só isso que ela disse? - perguntou Jonas limpando o ouvido.

- Quando perguntei a que horas ela voltaria ela me disse que não sabia. Cíntia e Paula costumam ter conversas profundas... que duram horas a fio, foi o que ela disse.

- Xi, lascou! - disse Jonas.

- Como assim? - perguntou Antônio duvidando que seu destino pudesse ser pior.

- Sua namorada tá dando a bunda. - Jonas respondeu sem pudor algum.

- Como é?!?

- E como você sabe? - perguntou Peu.

- E você conhece algo mais profundo que sexo anal? - argumentou Jonas. - Eu certamente não conheço.

Uma pausa se seguiu enquanto Antônio tentava imaginar o que Jonas sugerira. Depois que conseguiu tentou afastar a idéia com tremendo esforço, sem muito sucesso, é claro.

- Eu acho que você está enganado - Peu ainda tentava confortar Antônio, mesmo sabendo o quão turrão ele podia ser. - eu estava com você naquela noite. Vi o quanto ela gosta de você.

- Claro - interrompeu Jonas - Há a chance de André e Cíntia serem a mesma pessoa.

- Ceeerto... - bufou Antônio.

- Pense por um minuto - quando Jonas não bebia teorias começavam a se formar em sua cabeça. Mais um motivo para que ninguém interferisse em sua vida boemia. - Você já viu os dois no mesmo lugar? Ao mesmo tempo?

- Não, mas...

- Então! Tá na cara. Esse André é a Cíntia... e vice-versa.

- Por que não vamos até o apartamento dela para conversarmos todos? - sugeriu Peu.

- Não! - disse Antônio - Acho melhor esquecer de vez essa garota.

- Já era - disse Jonas, por fim.- a gente vai até lá, compra umas brejas...aliás, aliás... a gente compra umas brejas, vai até lá, compra umas brejas, confronta os caras, ou as garotas, como você preferir, e aí então compra mais algumas brejas.

Assim, os três saíram do apartamento e tomaram um ônibus até o outro lado da cidade, onde Paula vivia.


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|Domingo, Abril 09, 2006|



Capítulo 1
XI

- Baba.

- "Baba"? - perguntou o psicanalista sem nome.

- Sim, baba. - confirmou Antônio, que ainda se sentia pouco à vontade sentado no divã. Já pensara em comprar um sofá novo para o homem, mas desistiu da idéia após perceber que seria difícil carregar um sofá dentro de um ônibus lotado.

- Por que "baba"?

- O amor está na baba. Foi o que concluí.

- E como você chegou a tal conclusão?

- Adormecemos ali mesmo, pouco após o tal beijo... digo, ela adormeceu. Eu permaneci acordado, não consegui dormir por causa dos robôs... que acabaram se mostrando ser, na verdade, apenas um cara muito animado que mexia em alguns botões. Então, enquanto ela dormia, eu apenas a observei. Ela deitou em meu ombro e começou a babar... alguns minutos depois ela se levantou um pouco, fazendo com que um fio se prolongasse de sua boca até meu ombro... depois se virou para o outro lado e voltou a babar. Acho que é um mecanismo inconsciente que ela tem. Assim que começa a se molhar com a baba acumulada de um lado, ela se vira para babar do outro...

- Antônio - interrompeu o analista - Ainda não entendi onde exatamente você quer chegar.

- Claro que não entendeu, eu ainda não cheguei lá. - Antônio irritava-se com tais interferências do psicanalista. Ele não tinha paciência para ouvi-lo, era o que parecia. Mas, também, se alguém não tem paciência o suficiente nem para comprar um sofá que realmente estivesse inteiro, por que teria paciência para escutá-lo?

- Bem, continuando, quando vi aquele fio de baba saindo de sua boca e melando meu ombro inteiro, percebi que estava amando. Percebi porque só uma pessoa que esteja amando é capaz de ver uma cena dessas e achar tudo lindo. Entende o que eu digo?

- Acho que sim - respondeu o psicanalista.

- É isso. - continuou Antônio - o amor está na baba. Essa devia ser a definição do amor. Nem sei porque nunca escutei uma música sobre baba e amor... agora que sei, e consigo ver claramente, percebo que essa é a essência de tudo. A baba...

- Bom, tem "baba baby" - disse o psicanalista. - da Kelly Key, sabe?

- Você continua a me decepcionar... - respondeu Antônio com desdém.

- Certo - disse o analista tentando mudar de assunto o mais rápido que pode - agora conte-me o que mais aconteceu.

- Aí, algumas horas depois, enquanto Paula ainda babava, André apareceu e disse que era hora de irmos. Acordou Paula com um beijo no rosto, o maldito, e ainda por cima deu-lhe um abraço. Como se eu fosse invisível!

- Por que? Você também queria um abraço?

- Não eu... não, não queria um abraço!

- Hmmm - o psicanalista anotou algumas palavras em seu caderno e voltou a fazer perguntas - é impressão minha ou você tem algo contra esse tal de "André"?

- O que você está querendo sugerir com isso? - perguntou Antônio enraivecido.

- Antônio, você sente ciúme quando André chega perto de Paula?

- Claro que não - respondeu ele, implacável - Por que? Você acha que eu devo ter? É isso?

- Não, não... eu apenas acho que... - disse o psicanalista sem conseguir concluir.

- Você quer dizer que é possível que ela tenha algum relacionamento com ele? Como é que você pode me dizer uma coisa dessas? - Antônio disparava as frases num curtíssimo espaço de tempo - E como é que você tem tanta certeza? Acha que eu devia ir até lá perguntar pra ela? É isso?

- Acalme-se, Antônio eu só quis dizer que...

- O que? Peloamordeseusfilhinhos! O que?!?!?

- Só queria saber se você sentia ciúme. Se ver ele a abraçando te deixava nervoso. Ou se ver ele beijando Paula te deixava irritado.

- Beijando? Como é? Você sabe de algo que eu não saiba?

Porém, antes que ele pudesse responder, Antônio pulou do sofá maneta, agarrou seu casaco e correu para fora da clinica, resmungando:

- Eu pago uma fortuna por mês pra esse cara me dizer que sou corno... maldição!


dito e feito por Jayme
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|Quarta-feira, Abril 05, 2006|



Capítulo 1
X

Paula puxou-o pelo braço para bem longe da tenda gigante onde os robôs saxofonistas se encontravam, até chegar a um belo e extenso declive, todo gramado. Tendo agora os tambores da música eletrônica como um leve zumbido em suas cabeças, ela se deitou no chão e puxou Antônio para junto dela. Claro, sem saber que Antônio, por ser alérgico à grama (e a um punhado de outras coisas improváveis), já começara a se coçar.

- Sabe, tenho pensado muito em você. - disse ela olhando para o céu negro.

- E eu em você - respondeu Antônio coçando o pescoço. - por algum motivo não paro de pensar em você perguntando o que estou vestindo...

Paula riu. E aquele riso fora o estopim para o inicio de uma bela noite. Alguns beijos fogosos se ensaiaram, mas Peu fizera questão de lembrar Antônio de sua presença ali, dizendo que não tinha deixado de ver o especial sobre cupins para ver dois humanos se atracando... se essa fosse sua intenção, era só gravar um Domingo Legal.

Assim, passaram a noite repartindo segredos. Antônio contou sobre seus medos (o de cair para cima, o de encolher até a morte, entre outros) e Paula contou sobre seu primeiro namorado. Ele discorreu brevemente sobre suas manias (a de sempre começar a comer pães pelos lados, e não pelas pontas, e a de sempre escutar a faixa numero seis sempre que comprava um cd novo) e ela admitiu ser superficial para agradar seus amigos. Por fim, ele narrou sua infância (e citou todos seus amigos imaginários, por ordem de tamanho e, em seguida, por ordem cronológica) e ela disse como se sentia culpada e, ao mesmo tempo, viva, por sua mãe ter morrido em trabalho de parto.

- Saber que alguém morreu para que você vivesse me faz, sim, mais viva... - repetiu ela com lágrimas nos olhos.

Antônio apenas permaneceu calado. Peu sussurrava para que a abraçasse. Mas Antônio mal sabia se devia dizer algo, quanto mais abraçá-la. Brigou com tal dúvida durante alguns segundos, enquanto se coçava por inteiro (a esta hora todo seu corpo era invadido por pequenas pelotas enrugadas), e abraçou-a.

- Me sinto tão segura aqui, ao seu lado - disse ela sem perceber que Antônio aproveitara o contato com seu corpo para saciar sua alergia.

- E eu ao seu... - respondeu ele, claramente se esfregando no corpo de Paula.

Paula sorriu, olhou para ele, e perguntou de forma amável:

- Você tem medo da morte?

- Não - disse ele prontamente, já havia pensado no assunto e concluíra que era algo inexorável, portanto, não merecedor de seus temores (e temores ele já possuía demasiados) - Não tenho.

- Pois devia... - disse ela, sem completar.

Depois disso passaram mais algumas horas se conhecendo, desta vez fisicamente. Procuraram por covinhas, dobras e pintas. E quando acharam todas, um no outro, passaram a procurar por cicatrizes e marcas de nascença. Ela disse que ia ficar careca pois seu cabelo vinha caindo muito rápido, e ele disse que seu sonho era ser careca. Mas sua cabeça era poligonal demais para isso.

Enfim se beijaram. Beijo longo, suave, ele passava sua mão por seus braços e sua barriga, enquanto ela apenas se encolhia... viveram uma vida numa noite. Beijaram por uma vida, numa noite. Conheceram-se por uma vida, numa noite.

E eu finalmente terminei um post sem uma piada infame... perceberam?


dito e feito por Jayme
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|Domingo, Abril 02, 2006|



Capítulo 1
IX

Antônio passou alguns minutos a procura de alguma calça sem furos e a única coisa que conseguiu encontrar foi um pijama quadriculado que já não usava há alguns anos. Era um pijama. Era quadriculado. Mas uma calça sem furos ainda é uma calça sem furos. Por isso Antônio enfiou suas pernas dentro do pijama, vestiu uma camiseta com os dizeres "Mutualismo? Pra que?" e enfiou Peu no bolso. Peu, aliás, apesar de sentir-se apertado, gostara da idéia. Quase nunca saia do apartamento, já que ninguém mais era capaz de ouvi-lo, portanto qualquer chance de sair que conseguia, era aproveitada.

Alguns minutos passados, Paula tocou a campainha e Antônio correu afobado pelas escadas, mal podendo esperar por revê-la. Porém, assim que chegou ao térreo, avistou Paula abraçada a um homem de cerca de dois metros de altura, o que para Antônio e seus 165cm, mais pareciam ser cinco ou seis metros.

Antônio refutou em dizer olá, mas o fez assim mesmo, timidamente:

- Oi! - respondeu Paula - Queria te apresentar, este é o André, é ele quem vai nos levar até a festa.

Numa reação de defesa absolutamente natural (pelo menos para ele podemos considerar natural), Antônio apenas acenou para André, fazendo cara de mal-humor e de alguém que está ligeiramente puto, torcendo para que aquela expressão passasse algum ar de profundidade, o que nunca acontecia, de fato.

- Salve, salve! - disse André abraçando-o. - ouvi falar um bocado sobre você...

- Pára, André! - reagiu Paula quando percebeu que ele falaria o que não devia.

- Tudo bem - disse ele rindo - Tá pronto pra festinha, Antônio?

- Sim, sim, claro - respondeu Antônio. - espero conseguir alguns pasteis-de-belém.

Assim, enquanto Paula tentava, sem sucesso, explicar o que era uma rave, seguiram seu caminho. Digo "sem sucesso" porque Antônio simplesmente não pertencia àquele mundo, haja vista que para ele "música eletrônica" seria, em tese, uma banda formada por robôs saxofonistas. Por fim, Antônio concordou com tudo o que ela dizia, fazendo novamente a cara de mal-humorado que achava que devia fazer toda vez que não entendia algo.

A chácara que abrigaria a rave era um espaço grande, aberto, com uma única tenda estendida por algumas centenas de metros, e um extenso campo ao redor. Logo que chegaram Antônio teve duas impressões. 1- Havia muita, muita, muita gente ali. 2- A maioria das pessoas "dançava" como se estivesse tendo um ataque epilético em pé. Mas preferiu guardar seus pensamentos para si.

Desceram do carro e, após beijar Paula no rosto (próximo demais à boca, pensou Antônio), André foi até a tenda procurar por alguns amigos, ou pelo menos foi o que ele disse, deixando Antônio e Paula a sós (a não ser por Peu e pela centena de pessoas que os rodeavam) para conversar um pouco. Se é que o bumbo absurdamente alto e constante da banda de robôs saxofonistas os permitiria conversar.

- Gostei da sua roupa - disse Paula gritando ao seu ouvido.

- Como é? - perguntou Antônio.

- Hã? - ela retrucou.

- Oi? - disse ele. - Bom, eu gostei da sua roupa - Paula vestia um vestido roxo, com um par de botas que se arrastavam até seu joelho. Neste ponto Antônio temeu estar pegando alguma doença contagiosa, uma vez que nunca reparava no que as outras pessoas vestiam. Ora, nunca reparava nem mesmo no que ele vestia!

Paula pareceu ter sido capaz de escutar e agradeceu. Aproximou-se de Antônio para dizer algo e, neste ponto, a banda de saxofonistas resolveu pregar-lhes uma peça, fazendo com que a "música" parasse por cerca de 5 segundos... voltasse a tocar por mais 5 segundos... parasse de novo... voltasse... enfim, essas coisas de saxofonistas robôs Tornando, assim, possível um pequeno diálogo entre os dois.

- Olha, eu queria dizer... - disse ela.

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- ... mesmo. E espero que você...

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- Mas é claro que...

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- ... se você não quiser, né. - concluiu Paula.

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- Bom, eu acho que... - começou a responder Antônio.

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- ... e se você me deixar...

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- Talvez eu possa...

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- Certo? - concluiu ele.

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- Então vamos? - perguntou Paula.

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- "Vamos"? Onde??? - perguntou Antônio atônito.

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- Vem! - disse ela. Depois pegou em sua mão, deu-lhe um beijo e o levou até...

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dito e feito por Jayme
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