Jayme: Rapaz de 20 anos, quase 21, demorou 19 para descobrir o que queria da vida e demorará mais 19 para atingir suas metas. Admirador de filmes estrelando Ursinho Pooh e sua trupe, Jayme gosta de longos passeios na praia e sentar junto à lareira nas noites frias de domingo. Isto é, se em sua cidade houvesse uma praia, se ele não sofresse com o calor de 40ºC durante o verão, e se ele acreditasse em domingos. Mas nem tudo são flores em sua vida, nosso querido rapaz afirma que desgosta de flores, coraçõezinhos, da geração powerpuff e de um bocado de outras coisas. E enquanto está ocupado desgostando de um bocado de coisas por aí, Jayme escreve num blog, ou o que ele pensa ser um blog. Apresento-os, o Dios Mio!!: (aviso: personagens aqui citados que possuam qualquer semelhança com pessoas reais são frutos de horrendas coincidências.)


-Andale, Andale-

|Dios Mio no Orkut|
|Folog|
|El Púdin|


-Parejas-

|Ah, É?|
|Além do que se lê|
|Ana ou algo assim|
|BbLinda|
|Blog Do Zé Dend´água|
|BlogLóides|
|Cérebro Eletronico|
|Depósito Calvin|
|Estandarte Beat|
|Faby Tedrus|
|Five Against One|
|In Loko Again|
|Kibe Loco!|
|Mi Casa, Su Casa|
|N e c r o s i s|
|O Reino da Alegria|
|Sociedade Alternativa|
|Spoiler|
|Uaaai?!|
|Último Momento|
|Velho Deitado|
|Wonder Woman|



-Memorias de ún Jillipolla-

|Arquivos|



CLIQUE E VERÁS





SINCE
24/01/2004

|Quinta-feira, Março 30, 2006|



Lembro-me do que não vivi. Do vestido que você não usava quando não nos encontramos. Me recordo de onde nunca estive, sinto falta do que não tive e saudade do que nunca vi. E todas as noites o homem que nunca fui dorme, tranqüilo, na cama em que eu não me deito.

E quando paro para pensar, penso que queria ser outro. Penso que queria te dizer o que não disse. Queria também não me deixar afetar tanto, queria não ser infantil, queria não errar, queria não chorar... queria não depender de dinheiro, queria não ser grudento, queria não ser impulsivo, queria não sofrer, queria não ser capaz de digitar com os olhos cheios de lágrimas.

Mas aí me canso de todas essas negações e passo a querer outras coisas. Queria te segurar em meus braços, queria te dar segurança, queria te proteger, quando você acha que isso é impossível. Queria dizer "xiiiiu" ao seu ouvido todas as noites, queria me sentir bem durante mais de dois segundos, queria saber de cor e salteado todos os livros e autores pelos quais você é apaixonada. Queria ser perfeito, queria morar longe daqui, queria estar longe do "longe", queria mesmo é te abraçar, só te abraçar. E esperar tudo ir sumindo, como as luzes do cinema diminuem gradualmente. Eu só queria... ah... eu só queria...

Eu só queria conseguir parar de querer. E ter tudo o que quero de uma só vez, assim, como eu já tive. Como já tive... só não queria perder tudo de novo.


Nota: eu sei, desculpem-me.


dito e feito por Jayme
| Digame:





--------------------------------------------------------------------





|Quarta-feira, Março 29, 2006|



Capítulo 1
VIII

Alguns dias se passaram após o último encontro entre Paula e Antônio. Sim, alguns dias. Eis a maravilha da narrativa, eu sou capaz de acelerar dias, semanas, anos, com apenas algumas palavras. E como nada verdadeiramente interessante aconteceu durante esses dias, fora o fato de Jonas ter enroscado seu cabelo no vaso sanitário enquanto tentava "consertar" a descarga (mas desconfio que isto não precise ser narrado), avançarei alguns dias.

Enfim, alguns dias se passaram e Antônio sentia-se extremamente ansioso, como de costume. Mas desta vez a ansiedade era outra. Ele passara todas as 24 horas desses dias pensando em Paula. Pensava em seu rosto, pensava em sua voz, pensava na quarta pinta, da esquerda para a direita, em seu pescoço (particularmente sua favorita). Pensava em como ela estava, em como ela andava, no que fazia, no que não fazia, se comia, se não comia. Se perguntava se ela pensava nele e por que ela gostava tanto de perguntar o que ele vestia.

Aí então, passadas 14 horas de outro dia pensando em Paula, o telefone começara a tocar. Era Paula, perguntando o que ele vestia (cueca e um par de chinelos... mas Antônio inventou algo mais depois que ela disse "Seu bobo, fala sério!"). Após alguns minutos de conversa fiada, no que Antônio era especialista, descontados os primeiros momentos em q conhecia uma pessoa pois era tímido demais, Paula o convidou novamente para um encontro. "É melhor eu tomar a iniciativa, né", brincou. Mas ela tinha razão, sabemos disso. Por fim, ela o chamou para conhecer uma famosa rave que havia pela cidade, uma vez que seu amigo André a convidara e ela, sem conseguir negar, concordara.

Antônio, sem saber o que diabos era uma rave concordou e desligou o telefone já pensando vestir calças, pois Paula passaria em seu apartamento em instantes. Porém, ao passar por seu quarto viu Peu parado, cabisbaixo, e aquilo só poderia significar uma coisa:

- Você andou assistindo animal planet de novo, não é? - perguntou Antônio num ar de consolação.

- Malditas formigas... - respondeu Peu, retirando timidamente uma lágrima que escorria de seu olho esquerdo. - Um dia meu povo há de se libertar... eu juro que há.

Antônio permaneceu calado, já entrara numa discussão sobre biodiversidade e sobre como as formigas também eram importantes para nosso frágil ecossistema, mas Peu era irredutível. Dizia que a guerra era inexorável, e que um dia a agressão das formigas cessaria, mas tal dia só viria com uma espécie de Jihad dos insetos, ou coisa parecida.

- Hey, você sabe o que é uma rave? - Antônio acabara de ter uma idéia para animar seu amigo.

- É uma espécie de feira cultural, não? - respondeu Peu - Como aquela feira das nações que visitamos há alguns anos, creio eu.

- Paula acabou de me convidar a uma rave - continuou Antônio - eu posso te levar, se você quiser. É só vestir uma camisa e colocar você em meu bolso, já fizemos isso, vamos?

- Bem, seria melhor do que ficar em casa e começar a assistir o especial sobre cupins o dia todo...

- Isso, seria fantástico!

- Malditos cupins, eles...

- Vamos - fez questão de interromper, Antônio. Não queria ter de ouvir outro sermão - Ela já passa aqui.

- Claro - disse Peu ao subir pelas mãos de Antônio até seu ombro - finalmente vou conhecer essa garota sobre quem você não pára de falar.

- Ela é fantástica, você vai ver. Aliás, ela me disse para que tomássemos cuidado e se quando estivermos por lá alguém nos oferecer alguma balinha, é melhor negar.

- Poxa, mas eu adoro balinhas! - desapontou-se Peu.

- É, mas já que ela disse, é melhor negar. - bronqueou Antônio.

- Certo, mas se tiver bala de coco eu vou aceitar, hein!

E, assim, preparam-se para encontrar Paula.


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------





|Domingo, Março 26, 2006|



Capítulo 1
Transubstanciação

VII

- E o que ela perguntou? - perguntou Peu, demonstrando imenso interesse na história que Antônio contava.

- Não é muito importante... - respondeu o narrador de tal história.

- Eu também não acho - interferiu Jonas - A questão é: você traçou?

- Como? - perguntou Antônio.

- Você traçou? Comeu? Funfou? - Jonas repetia logo após dar um enorme gole num copo de cerveja que ele amigavelmente apelidara de "Santo Graal".

- Deixe ele contar - argumentou Peu - É importante sim, o que ela perguntou?

- "Por que você gosta tanto de filmes?", foi o que ela perguntou. - disse Antônio encabulado.

- Rá! Aposto que você disse que filmes te deixavam com tesão - disse Jonas, que costumava se animar demasiadamente com conversas sobre mulheres e encontros - é o que eu diria!

- Não, pra falar a verdade eu comecei um monólogo. O cara que escreve isto aqui não é muito criativo e decidiu encaixar um pequeno monólogo na hora da resposta, então, que escolha eu tinha?

Jonas e Peu pararam por um momento, confusos por não saberem o que Antônio queria dizer com "o cara que escreve isto aqui", uma vez que eles ainda não sabiam que eram apenas personagens criados por esta singela pessoa que vos escreve. Por fim, Jonas achou que ele se referia a Deus e Peu apenas ignorou o comentário, pensando que Antônio poderia ter bebido um pouco do Santo Graal.

- E o que você respondeu de fato? - perguntou, enfim, Peu.

- Eu disse que gosto de filmes porque a maioria deles têm apenas duas horas de duração. Quero dizer, não há tempo para banalidades, ou embromação. Não nos bons filmes, pelo menos. As coisas acontecem e continuam a acontecer, não há aquele período de hiato entre um acontecimento e outro. Diferente de nossas vidas, sempre estafantes e, por muitas vezes, tediosas. O final é algo que também me agrada muito. Algo começa, é resolvido e acaba, duas horas depois. Não há nada além disso. Por aqui não, se eu vivo uma grande história hoje, ela geralmente não termina como uma grande história. Ela passa, como tudo nesta vida passa, e se transforma de grande história para uma pequena memória. E tudo o que temos hoje pode se perder amanhã. Com os filmes isto não acontece, o que se resolve, se resolve. E uma grande história é sempre uma grande história.

Jonas e Peu se entreolharam em silêncio.

- Tá bom, então você não comeu ninguém ontem. - disse Jonas.

- Nem me importo com isso - disse Antônio - Paula concordou com tudo o que eu disse, e completou dizendo que gostava de ir ao cinema pelo refugio. Disse que esquece do que se passa ao redor dela quando olha para a tela, e eu concordo plenamente com isso.

- Talvez você tenha se enganado quanto sua primeira impressão em relação a essa garota. - completou Peu.

- É, acho que sim - disse Antônio - Foi realmente uma noite fantástica. Nem tive de usar meu saco de pão...

- Saco de pão? - perguntou Jonas ao se levantar para encher seu "copo" - Tá, agora eu sei que você não comeu ninguém!


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------





|Quarta-feira, Março 22, 2006|



Capítulo 1
VI

Antônio vestiu uma camiseta amarrotada, seus jeans favoritos (usar bermuda era algo inimaginável para Antônio), um par de tênis surrados e pegou o primeiro ônibus até o cinema onde se encontraria com Paula em instantes. Alguns dias haviam se passado desde sua ultima sessão com seu psicanalista (ainda sem nome) e, desde então, Antônio sofrera com suas famigeradas crises de ansiedade, tendo de respirar em sacos de pão e tudo o mais. Não que isso ajudasse, é claro. Mas o fato é que sentir o cheiro de sacos de pão acalmavam nosso caro amigo.

Logo que entrou no ônibus vazio Antônio, como de costume, deu alguns passos adiante depois tentou medir a exata metade do veículo. Colocou o polegar em frente o olho direito e cerrou o esquerdo com força, enquanto tentava visualizar onde se sentaria. Após alguns segundos calculando, especulando e assustando uma velha senhora que começara a pensar que Antônio era um desses jovens pervertidos de hoje em dia que fazem sexo com animais, dirigiu-se até uma cadeira vazia, no centro do ônibus (é claro) e por lá se acomodou, pensando em situações absurdas tão absurdas que seria um absurdo pensar em descrevê-las por aqui.

Enquanto divagava, alguém sentou ao seu lado e perguntou:

- Tá ocupado?

- Não, eu não - disse Antônio ainda perdido - eu só pensava em...

- Não, era em relação ao lugar. Tinha alguém sentado aqui? - interrompeu a garota que sentara ao seu lado.

- Ah sim, claro - tentando se localizar, Antônio mal olhara para o rosto da garota - Acho que havia sim, alguém sentado. Sabe, este ônibus está circulando desde manhã, e já são 19h. É pouco provável que ninguém tenha se sentado aí até agora...

- Certo - disse ela entre um riso abafado e outro - E você, como está? Senti saudade, sabia?

Como diabo aquela garota havia sentido saudade dele se acabara de chegar ali, pensava Antônio. Mas aí, por puro reflexo, levantou os olhos até seu rosto, que até então não tinha observado.

- T... Taula? - assustou-se Antônio.

Paula olhou para ele com seus olhos verdes e disse:

- Não, é Paula. Que milagre te encontrar por aqui.

- Não quer entrar para tomar uma xícara de café? - murmurou Antonio.

- Como?

- N.. Não, nada! - disse ele voltando à realidade - O que você faz aqui, achei que nos encontraríamos no cinema. Não?

- É, mas eu vi você entrando no mesmo ônibus que eu, aí eu tive de vir falar contigo, né? Se eu ficasse quieta você logo reconheceria uma aberração ruiva sentada ali no cantinho. - Paula apontou para o fundo do ônibus, para a cadeira atrás da velha que ainda pensava em jovens e animais.

"Aberração uma ova...'', pensava Antônio. E ele estava certo, se querem saber. Paula pintara seu cabelo de vermelho após o encontro com Antônio, o que dava um ar exótico à, até então, sua beleza natural. Ela usava uma saia xadrez, com uma mini-blusa preta, com algo francês escrito. Algo que Antônio não conseguira ler, já que sua experiência mais próxima com um francês que já tivera fora com um pãozinho francês.

- Bem, você está muito bonita - disse ele.

Ela sorriu. E o rosto de Antônio se iluminou como um abajur ao lado da cama uma esposa celibatária.

- Obrigada - respondeu - Você também. Adorei seu visual ''trash". Adoro todo esse visual de garoto desarrumado que você faz. Você gosta desse estilo, né?

Antônio não sabia do que diabo ela queria dizer com "estilo" e "visual de garoto desarrumado", mas acenou a cabeça mesmo assim. Como fazia sempre que perguntavam algo que não entendia.

- Bem, posso perguntar uma coisa? - disse Paula se aproximando um pouco mais do corpo de Antônio. Corpo que ele já não parecia comandar.

- Ahm... claro - disso ele.

Eu concluiria esta singela conversa, mas desconfio que o post tenha ficado grande demais e se eu escrever demais eu posso acabar...


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------





|Domingo, Março 19, 2006|



Capítulo 1
V

Pela segunda vez naquela semana Antônio entrou na sala de seu psicanalista (que não foi nomeado por simplesmente não ser importante o bastante) e observou desconfiado o divã.

- Doutor, posso te fazer uma pergunta? - já perguntou Antônio.

- Claro que pode. - respondeu o psicanalista animado. A última sessão não havia sido um grande sucesso, por isso qualquer demonstração de um laço entre os dois era, a seus olhos, altamente benéfica.

- Com o dinheiro que lhe pago, não dava pra comprar um sofá com braços?

- Você prefere sofás com braços? - perguntou o psicanalista um tanto decepcionado.

- Eu não, mas o senhor, pelo jeito, adora os sem braço.

Depois desse comentário Antônio permaneceu calado por um ou dois minutos. O que acabou criando um daqueles momentos que temos quando ficamos a sós com os pais de uma namorada(o) nova(o), ou quando temos de fazer sala para o tio-avô do primo do cunhado do seu vizinho. Antônio observava atentamente a sala, olhando para os quadros, a escrivaninha, a poltrona onde seu psicanalista se sentava e a caixinha de lenços quase vazia ao seu lado. O fato da caixa de lenços estar quase vazia significava um bocado para Antônio. Queria dizer que: 1- as pessoas costumavam chorar por ali; 2- aquele cara era uma epidemia ambulante, provavelmente transmitia um baita resfriado para seus pacientes, ou clientes... sabe-se lá como ele os chamava. Mesmo não sabendo qual opção era a correta, Antônio achou que deveria tomar cuidado dali em diante. Então decidiu apenas narrar o acontecido na noite anterior.

- Ontem aquela garota do cinema me ligou. - disse Antônio quebrando o silêncio.

- Ah é? - resmungou o psicanalista, pouco antes de pegar um lenço e assoar o nariz.

- É, é sim. No inicio eu achei que ela quisesse me ameaçar, pedir dinheiro, ou coisa do tipo. Mas não era nada disso...

- Conte-me como foi.

"O telefone tocou, eu mal pude xingar os caras que moram comigo. Tenho uma certa compulsão por atender telefones. Mal tocam uma vez e eu já corro para atendê-los. Qualquer telefone. Aliás, estou muito contente por não ver nenhum telefone por aqui...

Mas, enfim. Atendi e era ela, Paula. Não Taula, como disse Jonas. Primeiro ela chegou dizendo que adorou sair comigo naquele dia em que me atacou sem piedade e quase me sufocou com sua língua (mas é claro que eu não disse nada sobre isso...). Depois perguntou o que eu estava vestindo. Ao que eu respondi a verdade... digo, quase a verdade. Não disse a ela que estava usando meias do Mickey que minha própria mãe tricotou. As meias são amarelas, e imagino que ela não goste de coisas amarelas. Mas falei a verdade no resto.

Depois disso ela parece ter perdido o interesse sobre meu vestuário e disse que a gente podia ver o filme do Guns que eu queria assistir. Ela disse que adorava Axl Rose e até o Slash, mas eu acabei corrigindo-a e dizendo que não era bem o filme do Guns, e sim do Gus. Gus Van Sant. Aí ela riu e disse que era uma piada. Mas eu tenho minhas dúvidas. Digo, quem em sua sã consciência faria uma piada com Gus Van Sant???

Mas, ok. Fingi que ri e disse a ela que estava um tanto sem tempo. E estou mesmo, tenho de lavar pratos, limpar a casa, aguar as plantas. Tenho muita coisa a fazer, você sabe. Mas aí Peu, que estava escutando pela extensão junto de Jonas, me deu um beliscão e disse que se eu não quisesse levar outro, eu deveria aceitar a proposta. E você já tomou um beliscão de um louva-deus? Meu amigo... dói pra diabo. Não exatamente para diabo porque Peu é ateu, você sabe. Mas que dói, dói. Assim, acabei aceitando o convite e combinamos de nos ver neste fim de semana..."

- E você está animado com isso? - disse o psicanalista assoando novamente o nariz - Essa Paula parece ser uma garota interessante.

- Claro, as pessoas ficam muito mais interessantes quando seu louva-deus tenta te esquartejar.

- Sobre seu "amigo" louva-deus... - tentou dizer o psicanalista.

- Sim, eu sei. - interrompeu Antônio.

- Sabe?

- Claro que sei. O que ele quer é ver um filme de graça. Maldito...


Nota: Mesmo não sabendo exatamente qual a opinião de vocês sobre o Capítulo 1, pretendo continuar com isso todas os Domingos e Quartas-feiras. Isso é, até eu não agüentar mais e abandonar tudo de uma vez. Uma boa semana para vocês ^_^


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------





|Quarta-feira, Março 15, 2006|



Capítulo 1
IV

Apesar de conviver há curtas duas semanas com Jonas, Antônio já percebera que certa paciência era vital para o "fácil" convívio com seu colega de apartamento. "Fácil" entre aspas mesmo, pois quando se trata de lidar com alguém que só permanece sóbrio um dia por semana - dia que é aproveitado para "botar o sono em dia", ou seja, dormir por 19 horas sem intervalo - nada era fácil.

Assim, Antônio resgatou o pedaço de paciência que ainda não tinha gasto num dos ônibus que tomou e usou-o com cautela:

- Jonas, Peu disse que alguém me ligou hoje e que você, supostamente, teria anotado um recado para mim.

- Calúnia! - respondeu Jonas num grito estridente - Eu sou contrário até que provem o inocente!

- Certo... E isso deve demorar um bocado. Até lá, por que você não me diz quem me ligou hoje?

- Tá bom, tá bom. Foi uma tal de Paula. Ou Taula, ou qualquer coisa do tipo. - disse ele finalmente cedendo o nome. - Estranho é que, quando atendi, ela perguntou o que eu estava vestindo.

- Hm... Bem, não conheço nenhuma "Paula". - disse Antônio coçando o maxilar.

- Nem Taula? - perguntou Jonas.

Mas Antônio não respondeu. Ele de fato sabia quem era Paula, e agora se perguntava por que ela teria ligado para ele. Paula era a garota com quem foi ao cinema. E, notem, o verbo "ir" não está no futuro na sentença anterior, logo, o que ela poderia querer? Principalmente agora, que já foram ao cinema.

Suas mãos começaram a suar (as de Antônio, pois Paula sequer entrou na história definitivamente) enquanto ele pensava nos prováveis ''porquês'' daquela ligação. Ela talvez quisesse cobrar-lhe o dinheiro da pipoca, ou, quem sabe, tendo alguma conexão com o mercado negro, queria marcar um novo encontro para roubar-lhe os rins e trocá-los por um par de polainas novas.

Entendam amáveis leitores, Antônio fazia isso de vez em sempre. Toda vez que alguma situação inusitada o pegava desprevenido, ou quando se via ante uma situação que nunca havia vivido antes, Antônio ficava nervoso e imaginava coisas absurdas (algumas não tão absurdas assim, haja vista que o mercado negro andava em alta naqueles tempos), começava a suar, seu estomago embrulhava e gaguejava. Muito. Uma vez pensando sobre isso Antônio concluiu que seu inconsciente era o culpado, e decidiu oprimir esse seu lado subversivo. Mas o que ele não sabia era que seu inconsciente era mais consciente do que seu consciente, tornando-o, assim, o consciente, enquanto o consciente era, na verdade seu inconsciente. Mas é claro que Antônio não estava ciente de nada disso.

Bem, deixando todo esse papo de ciência de lado, voltemos à narrativa anterior: Após imaginar inúmeras situações embaraçosas, Antônio começou a sentir seu estômago embrulhando e a temperatura de seu corpo aumentando consideravelmente, fazendo-o suar por todas as partes por onde um homem pode suar (e, acreditem, não são poucas).

Peu foi quem interrompeu seu súbito mal-estar, caçoando:

- É, parece que você fisgou mais uma. - disse ele.

- Dá-lhe! - congratulou Jonas. - Esse é meu neguinho!

Antônio olhou para eles com desdém, mas quando afiou sua língua para responder à altura, o telefone voltou a tocar.


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------





|Domingo, Março 12, 2006|



Capítulo 1
III

Antônio saiu da clínica e foi direto até sua casa. Claro que, com isso, ele teve de tomar dois ônibus, levar algumas mochiladas de um sujeito cabeludo que se recusava a tirar a mochila das costas, correr 300 metros atrás do terceiro ônibus, desistir e andar cinco quilômetros, mas nada disso é realmente importante para o bom funcionamento desta história. Se esta história possuísse um bom funcionamento, é claro.

Enfim, o fato é que Antônio seguiu direto à sua casa. Havia conseguido se distanciar dos pais ao entrar numa faculdade estadual, -através do sistema de cotas para negros, é verdade. Mas isso não diminuía sua inteligência, a não ser para o próprio Antônio - mas estes obrigaram-no a visitar um psicanalista - sim, esse que apareceu nos dois contos anteriores - duas vezes por semana. "Nós queremos ter certeza de que você vai ficar bem", dissera sua mãe. Seu pai, sempre mais contundente, disse "Claro. Ao invés de ligarmos uma vez por semana, é bem melhor gastarmos o triplo do que gastaríamos num mês.", acrescentando, ainda, um conselho - e Antônio jurava que se tivesse pagado mais R$1,50 ele também teria lhe dado uma porção pequena de batata-fritas - "Meu filho, nunca se case. A menos que você realmente não queira ter dinheiro.".

E agora Antônio morava num flat - ou ''apê", como queiram - e visitava o tal psicanalista duas vezes por semana. Com ele moravam Peu, seu louva-deus ateu de estimação, e Jonas. E eu até poderia descrever Jonas aqui. Mas neste exato instante Antônio acaba de chegar em casa, fadigado, mal-humorado e um pouco fedido após a caminhada.

- Olha quem voltou - diz Peu assim que Antônio atravessa a porta. - como foi sua primeira sessão?

- Maravilhosa - respondeu - Conversamos sobre qual teoria é a mais apropriada para explicar o surgimento de vida humana na terra. Ele crê no criacionismo, mas eu fui bem agressivo ao discursar pró-Darwin. Acho que ele mudou de idéia.

- Uau, é mesmo? - perguntou Peu animado.

- Não. Foi um porre.

- Bah, tudo o que você faz parece ser um porre. Você precisa de mais otimismo nessa vida, meu amigo. Eu tenho noticias, por exemplo. Acho que alguém ligou para você.

- É, quem? - perguntou Antônio ao sentar no sofá sem muito interesse.

- Não sei, mesmo se eu quisesse atender você sabe que você e Jonas são as únicas pessoas que conseguem me ouvir, sabe-se lá por que...

- Isso é castigo divino. - interrompeu Antônio.

- Ok, vou ignorar seu comentário desta vez - continuou Peu tendo de adquirir enorme paciência - Enfim, foi Jonas quem atendeu.

Antônio levantou-se, foi até o quarto à esquerda do seu, cuja entrada era marcada por um pôster do Metallica pregado na porta por uma maça incompreensível de durex, fita crepe e outros produtos pegajosos. Esse era o quarto de Jonas. Cheirava a álcool e chulé, e seu ocupante parecia não se importar muito com isso.

- Jonas, alguém ligou pra mim? - perguntou.

- Hã? Como? - tentou responder o rapaz magro e cabeludo deitado na cama usando apenas uma bermuda.

- Telefone, alguém me deixou recado?

- Antôôônio! Caraca! Sonhei contigo! - disse Jonas levantando-se devagar.

- Não, sério. Depois você me conta o sonho. Alguém ligou pra mim?

- Depende. Quando é que você quer saber?

- Putz! - exclamou Antônio um tanto quanto impaciente. - Hoje! Alguém ligou pra mim hoje?!

- Cara, hoje eu não tenho tanta certeza. Mas na semana passada um amigo seu ligou. Disse pra você ligar de volta em uma semana, ou coisa do tipo. Mas acho que já não dá mais tempo, né?

- Caraca. Você andou bebendo de novo, Jonas?

- Que raio de pergunta é essa?! - gritou Jonas, fazendo com que Antônio chegasse a pensar que o tivesse ofendido, e ofender Jonas, apesar de seu minguado porte físico, não era uma boa idéia. - Claro que andei! Com quem é que você acha que está falando, hein?


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------





|Quarta-feira, Março 08, 2006|



Capítulo 1
II


- Bom - continuou o psicanalista, tentando ignorar o petulante comentário de Antônio - diga-me então se você possui algum relacionamento amoroso. Algo profundo, que você divida com alguém.

- Eu já tive. Mas não hoje em dia. Nestes dias tenho preferido deixar romances para quem entende de romances... sabe, escritores, etc..

- E por que não tem mais? - questionou.

- Bem, eu sempre me sinto meio patético e enojado quando penso que tenho de enfiar minha língua na boca de outra pessoa. Não que eu repudie a idéia, mas acho estranho estar conversando num momento sobre variações de tecidos de bolsas manufaturadas e, de repente, começar a me esfregar em alguém.

- Hmmm.

- Sem contar que mesmo ainda possuindo os quatro dentes do juízo, minha boca pronuncia um monte de asneiras. É incontrolável. Outro dia desses, por exemplo...

"Fui ao cinema com uma garota após um longo, longo tempo sem me relacionar com alguém por motivos óbvios, as pessoas são estranhas mesmo. Chegamos à entrada e, como o filme ia demorar a começar, começamos a conversar. Ela gostava de micaretas e carnaval fora de época, e eu gosto de Dostoievski e Kafka. Aí você para e pensa: 'o par perfeito', não? Não. Você se enganou. Mesmo! Eu dizia A, ela respondia W, eu dizia que seria legal assistirmos algo de Gus Van Sant e ela queria ver mais um American Pie, ou coisa que o valha.

Tudo bem, ignorei tais falhas em nosso recém iniciado relacionamento, mas aí, quando finalmente chegamos à sala de cinema (sim, decidimos assistir American Pie... dá pra ver o quão rígido eu sou.), eu já não sabia o que fazer. Não sabia o que dizer. Rapaz, se houvesse algum curso de flerte eu tenho certeza de que seria apenas o faxineiro da sala de aula.

O silêncio perdurou até que ela abriu a boca e disse a coisa mais inteligente que eu ouvi naquela noite. 'Tá frio aqui, né?' ao que eu respondi 'É, pois é...'. Depois tentei tomar iniciativa dizendo 'Eu queria fazer uma coisa...' e me inclinando para frente, em direção a seu rosto, mas aí comecei a pensar o que aconteceria se eu tentasse beijá-la e ela não quisesse. Imagens de tapas, desespero, choro e sangue zuniram por minha cabeça, então eu acabei virando minha boca até seu ombro e soprando algum inseto imaginário ali mesmo. 'Desculpa, mas eu tinha que tirar essa mosca daí...'.

Mas aí, para minha surpresa, ela me beijou. Me agarrou e grudou seus lábios nos meus."

- E não está mais com ela? - voltou a interromper o homem sentado atrás do divã.

- Não, não estou.

- Por que?

- Peu diz que é porque tenho medo de relacionamentos. Mas é balela. Não estou mais com ela porque não gosto de mulheres atiradas.

E, assim, Antônio encerrou sua sessão.


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------





|Segunda-feira, Março 06, 2006|



Capítulo 1

- Seu sofá não tem braços - disse Antônio

- Isso é porque não é um sofá - respondeu o homem a sua frente - é um divã.

- Hmmm... o divã...

- É.

- Igual o ex-zagueiro do Vasco?

- Você gosta de futebol? - perguntou o homem pronto para fazer anotações.

- Não, mas o Peu gosta.

- Quem é "Peu"? - perguntou novamente, desta vez escrevendo algo aparentemente ilegível para qualquer ser humano.

- Meu louva-deus.

Num claro sinal de surpresa o homem parou de escrever, descruzou as pernas, olhou para Antônio ali, sentado no divã (e não no Odvan), voltou a cruzar as pernas, mordeu a tampa da caneta, descruzou as pernas e as cruzou novamente. Desde pequeno considerava o "cruzar de pernas" o ato mais interessante que já pudera presenciar, talvez culpa de seus pais, que eram tremendos fãs de "Instinto Selvagem". Mas, como se isso não importasse a ninguém (e de fato não importa), Antônio voltou a falar:

- Sim, eu tenho um louva-deus. Inteligente à beça, se quer saber.

- Você tem um louva-deus de estimação?

- Não foi o que eu acabei de dizer?

- Conte-me sobre ele, então. Como é o...

- Peu - completou Antônio. - Ele é um tanto temperamental, pra falar a verdade. Não consegue admitir que perde uma partida de xadrez, vez ou outra. É esquerdista fervoroso e não admite que aos louva-deus o voto ainda não seja permitido. É ateu também. Disse que o dia em que eu provar a existência de Deus ele vira apóstolo, e que só não prova que não existe por querer poupar minha mente de revelações tão grandiosas...

- Certo. Agora, me diga...

- Mas eu disse a ele que é bem provável que exista. Tudo bem, sei que a igreja católica anda fodendo com todo mundo ultimamente, principalmente com a parcela da humanidade que possui menos de 10 anos de idade, mas isso não desmente nada... Sabe, às vezes desconfio que ele se diz ateu só para contradizer seu pai. Ele é rígido à beça, disse que nenhum filho louva-deus dele seria ateu... e...

- Tudo bem, tudo bem. - apressou-se a interromper o psicanalista - Antônio, eu queria saber qual é a sua relação com as pessoas.

- Depende, com que pessoas? Se for contigo eu diria que é muito cedo pra dizer. Só te conheço há alguns minutos...

- Com todos à sua volta. Como você se relaciona com as pessoas de verdade?

- Não muito bem... existem alguns problemas, pra falar a verdade.

- Problemas com você?

- Não, eu sou normal. São as pessoas que são abertas demais, contentes demais. Elas não me entendem.

- E você as entende?

- Não acabei de dizer qual o problema delas? Claro que entendo...

- Certo...

- Sabe, doutor... acho que você precisa de um pouco de atenção médica. Já procurou um psiquiatra?


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------





|Sexta-feira, Março 03, 2006|



Fatos

- Fato é que terminamos.

- Fato é que ando perdido.

- Fato é que escrevi algo que não deveria ter escrito, e acho que a magoei.

- Fato é que ainda amo, e a quero bem. Que seja feliz com alguém mais apto que eu.

- Fato é que não sei se tal amor/desejo é recíproco.

- Fato é que me sinto só.

- Fato é que este é um dos últimos posts que pretendo escrever a seu respeito, apesar da solidão.

- Fato é que achei necessária uma conclusão apropriada para algo que me fez tão feliz.

- Fato é que preciso seguir em frente, ser inteiro por minhas próprias forças. Não apenas quando estou unido a outro.

- Fato é que amei, e provavelmente vou guardar isso pra mim durante muito tempo.


dito e feito por Jayme
| Digame:




--------------------------------------------------------------------